A segunda colheita comercial de lúpulo brasileiro

Produção em São Bento do Sapucaí/SP é destinada à Baden Baden Märzen

Rodrigo Veraldi diante do "lúpulo valente", que resistiu ao descarte e deu origem à plantação (Fotos: Rodrigo Barradas)

Rodrigo Veraldi diante do "lúpulo valente", que resistiu ao descarte e deu origem à plantação (Fotos: Rodrigo Barradas)

RODRIGO BARRADAS
São Bento do Sapucaí/SP

A Fazenda Viveiro Frutopia, em São Bento do Sapucaí (SP), está iniciando a segunda colheita comercial do lúpulo Mantiqueira, desenvolvido na região. Como em 2017, a produção será utilizada na elaboração de uma cerveja no estilo Märzen pela Baden Baden, de Campos do Jordão (SP), vizinha e parceira no projeto.

O Brasil está entre os maiores produtores de cerveja do mundo, mas alguns insumos ainda são importados de outros países e o lúpulo se encaixa nesse contexto. O clima tropical do país não apresenta as condições tadicionais para tal cultivo, o que desafia produções experimentais, como houve no Rio Grande do Sul entre 2014 e 2015.

Em evento para a imprensa no dia 13 de março, o produtor Rodrigo Veraldi demonstrou otimismo sobre a produção da variedade em território nacional:

“É um lúpulo valente, que resiste às intempéries em diversos solos e climas. A gente sabe que, em lugares como DF e RS, vai produzir e vai dar qualidade.”

Para reforçar o argumento, Veraldi mencionou experimentos feitos por agricultores em diferentes tipos de solo e clima do que os encontrados em São Bento do Sapucaí. Foram citadas outras regiões de São Paulo, bem como Minas Gerais e Paraná. O agrônomo inclusive está trabalhando para a formação de um grupo organizado de produtores de lúpulo nacional.

Para Sidney Telles, mestre-cervejeiro da Baden Baden, a produção nacional de lúpulo “com escala e qualidade” é um passo importante para a evolução da cultura cervejeira artesanal no Brasil:

“Quando a gente pensa no mercado norte-americano, facilitou muito o cara ter malte e lúpulo no quintal. Queremos facilitar o crescimento sustentável do mercado de craft.”

Ambos concordam que ainda há pontos a avançar com o Mantiqueira, principalmente no beneficiamento, o que impacta em qualidade final e competitividade.

“A gente não tem nem equipamento”, disse Veraldi, “estamos fazendo tudo manualmente. A gente ainda erra na secagem, no armazenamento.”

Embora não tenha níveis elevados de alfas (que impactam amargor), o Mantiqueira tem características distintas de aromas, que lembram maracujá, jaca e frutas brancas, assim como alho e cebola.

“Acho que misturou essa coisa do tempero baiano com as frutas brasileiras”, avalia Veraldi.

A Baden Baden Märzen

Märzen ("März" em alemão significa março) é um estilo originário da região da Bavária, onde no século 15 existia um decreto de proibição de produção de cerveja entre 24 de abril e 28 de setembro, devido ao calor e às más condições de conservação. Originalmente, a cerveja era armazenada para lançamento em outubro. No caso da Baden Baden, a cerveja de 2018 já poderá ser provada antes de meados do ano, assim que estiver pronta e envasada. Como a produção será pequena para os padrões da cervejaria, Telles acredita que ela atingirá os mercados Sul e Sudeste.

A história do lúpulo Mantiqueira

Em 2005, Rodrigo Veraldi recebeu cerca de cem sementes de um lúpulo de origem desconhecida. Começou a trabalhar com as plantas em estufas, procurando selecionar as que demonstrassem maior produtividade. Feita a seleção, decidiu plantá-las em uma área da Fazenda Viveiro Frutopia, mas elas não resistiram às chuvas de verão. Veraldi desistiu da ideia e descartou os restos.

Dois anos depois, quando preparava uma área próxima para o cultivo de milho, percebeu que uma planta havia se desenvolvido na imprópria área de descarte. Com olhar mais voltado para a capacidade de adaptação e resistência do que à produtividade, decidiu retomar a produção, e o cultivo vingou. Nascia ali a variedade Mantiqueira.