Convidado

Roberto Fonseca

Eles, elas e as cervejas

Uma comparação entre os votos masculinos e femininos na enquete Melhores do Ano

Roberto Fonseca mantém desde 2009 a enquete Melhores do Ano (Foto: Arquivo Pessoal)

Roberto Fonseca mantém desde 2009 a enquete Melhores do Ano (Foto: Arquivo Pessoal)

Beer Art 16 - mar/15

Desde 2009, decidi iniciar uma pesquisa com cervejeiros, blogueiros, donos de bares e outros especialistas da bebida no Brasil, para ouvir suas opiniões sobre quais haviam sido os melhores rótulos e acontecimentos do ano − no que ficou conhecido como a enquete Melhores do Ano ou “enquete do Bob”. Logo na primeira edição, ouvi a cobrança para consolidar os resultados de cada categoria. E sempre fui relutante quanto à ideia, pois meu objetivo era apenas mostrar as escolhas e explicações de cada um, sem apontar “o melhor” ou “premiar” alguém. Este ano, revi meu conceito; ou melhor, percebi que, ao compilar os dados, eu poderia chegar a constatações muito mais interessantes do que simplesmente listar quais eram as cervejas mais citadas – quem quiser, pode ver as escolhas dos jurados em http://osmelhoresde2014.wordpress.com.

Uma dessas constatações é como votaram os jurados e juradas da enquete. Teriam homens e mulheres preferências distintas em termos de estilos cervejeiros? Trata-se de um tema polêmico no cenário cervejeiro: há quem defenda que sim, e que elas tenderiam mais a cervejas de perfil adocicado/frutado. A base dessa afirmação empírica vem, em geral, de donos ou atendentes em bares e lojas. Também empiricamente, porém, já percebi o contrário, que amigas preferem cervejas mais amargas e alcoólicas. Nunca, porém, vi uma pesquisa que, numericamente, expusesse opiniões de homens e mulheres em condições similares de conhecimento sobre cerveja. Por isso, resolvi separar os dados da enquete deste ano por sexo para escrever esta coluna.

Dos 234 jurados, 197 eram homens e 34, mulheres – entre elas duas confrarias femininas, a Female Carioca e a Confece. Havia ainda três casais respondendo em conjunto, o que impossibilita definir o peso de cada um nas escolhas. Só desses números já é possível extrair um dado, o de que a participação feminina no cenário cervejeiro artesanal brasileiro ainda está longe da igualdade numérica. Convidei mais mulheres do que as que efetivamente aceitaram participar, mas ainda assim o total não chegaria perto de igualar o de homens.

À pergunta “Qual estilo de cerveja você mais bebeu em 2014?”, India Pale Ales (IPAs), American IPAs e Session IPAs, que têm o lúpulo como principal destaque, tiveram 24 votos entre as mulheres, ou 64,8%. Já entre os homens, IPAs e congêneres também lideraram as preferências, mas em porcentual menor, com 95 votos, ou 48,2%. Em segundo e terceiro lugares para mulheres apareceram Saisons e Sours; para homens, American Pale Ales em segundo, Saisons e Sours empatadas em terceiro.

Ambos os sexos também coincidiram ao eleger como melhor Ale nacional a Morada Hop Arabica, que leva café em sua composição e é produzida no Paraná. A Jan Kubis, também do Paraná, foi a preferida das mulheres como Lager nacional e também dos homens, que contudo a colocaram em empate com a Dama American Lager, de Piracicaba. Uma diferença curiosa ocorreu na categoria melhor Weiss nacional: as juradas preferiram a Bodebrown Hop Weiss, mais lupulada, e os jurados mantiveram um empate técnico entre a Bamberg e a Fraga, representantes mais clássicas do estilo. Em Ales importadas, eles, porém, ficaram com a Sculpin IPA, mais amarga, e elas, com a Duchesse de Bourgogne, mais ácida.

Observando os dados, fiquei com a impressão de igualdade. Há, claro, um fator a ser considerado que diferencia os jurados da enquete de boa parte dos consumidores de cerveja no Brasil: um grau mais aprofundado, em diferentes escalas, de conhecimento sobre a variedade de estilos existentes e suas características. Seria essa a chave para que homens e mulheres possam apreciar suas cervejas favoritas da mesma forma?