Gaúchos, Berlin e sabores herbais

O segundo dia de festival, sob a análise do jornalista e sommelier Luís Celso Jr. 

Junto ao estande da Seasons, uma tela ganha cor em reverência à Basilicow, a Cerveja do Ano (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Junto ao estande da Seasons, uma tela ganha cor em reverência à Basilicow, a Cerveja do Ano (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Luís Celso Jr.

Especial para a Beer Art

Blumenau - As novidades não param no Festival Brasileiro da Cerveja. São muitas, e é impossível experimentar tudo em um único dia. Portanto, a quinta-feira, 12, foi mais um dia para ir à caça dos melhores lançamentos do evento. Cacei algumas cervejas gaúchas, já que houve um grande destaque para elas na premiação do concurso, revelada na terça-feira, 10. Acabei descobrindo que fazer Berliner Weisse no Brasil está na moda e a produção de cervejas com ervas e sabores herbais está em franco crescimento.

A melhor do Brasil

A estação é do manjericão, com a sensação Basilicow (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

A estação é do manjericão, com a sensação Basilicow (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Eleita a melhor cerveja do Concurso Brasileiro de Cervejas 2015, a Season Basilicow foi, sem dúvida, a cerveja mais disputada do festival. Numa sábia estratégia, após a premiação, o pessoal da cervejaria resolveu dividir o estoque nos vários dias do evento, para dar mais oportunidade do público degustar. A procura é tão grande que gerou filas na frente do estande antes da abertura de cada barril. Mesmo assim eu garanti a minha porção.

A Basilicow é uma Witbier com manjericão muito bem feita. O aroma destacado de manjericão em primeiro plano conquista o olfato de primeira. Em segundo plano, há um leve cítrico acompanhado por condimentado. Na boca, repete o aroma, com leve amargor, provavelmente do próprio manjericão, com final seco e levemente amargo. Corpo baixo e boa carbonatação finalizam essa refrescante, leve e bem equilibrada cerveja. Extremamente aromática e com ótimo drinkability, mereceu o prêmio. Com honras.

Herbais

O primeiro fruto da aliança Wäls/Ambev (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art) 

O primeiro fruto da aliança Wäls/Ambev (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art) 

E parece que a adição de ervas é uma das novas tendências da cerveja nacional também. Com a Basilicow, a Wäls-Bohemia Saison d’Alliance, a Karavelle Summer Wit - Lemon & Pepper e a Colorado Carambreja também usam essa ideia.

A Saison d’Alliance, por exemplo, usa sálvia, gengibre e hortelã. O aroma é forte e marcado pela sálvia, com gengibre e hortelã em segundo plano, além do condimentado típico da levedura belga. Na boca, leve amargor, repetindo o aroma, com final seco. É uma cerveja de corpo leve, boa carbonatação, ótimo drinkability e muito refrescante.

Já a Karavelle Summer Wit - Lemon & Pepper é uma Witbier com manjericão tailandês, pimenta sichuan e limao Kaffir. Uma excelente cerveja, criada em parceria com o chef de cozinha contemporânea brasileira Igor Furlan. Além do lindo rótulo, que lembra um “lambe-lambe”, a cerveja é marcada pelas ervas. O manjericão se destaca no aroma e sabor, com cítrico leve em segundo plano, lembrando limão, e um leve condimentado, remetendo à pimenta. Na boca, corpo leve, bem carbonatada, refrescante, repetindo o aroma, com bastante citricidade e herbal do manjericão. Final seco e leve, com aftertaste de limão e manjericão.

A Carambreja desapareceu rapidamente do estande da Colorado (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

A Carambreja desapareceu rapidamente do estande da Colorado (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

A Colorado Carambreja, que leva carambola e manjericão, foi a única que não consegui provar. A quantidade que veio para o festival foi bem pequena e não durou muito tempo. Mas vale a menção aqui.

Berlin em alta

No texto anterior, falei de algumas Sour Ales, estilo tendência no ano passado e que se consolidou em 2015. Depois, analisando mais a fundo, vi que algumas delas se enquadravam no estilo Berliner Weisse - algo bastante novo na produção nacional. É o caso da Morada Liquid Rio (com pêssego), Morada Berliner Weisse com Cupuaçu e Tupiniquim Ich Bin Ein Berliner (nas versões com e sem maracujá).

Nesta quinta provei mais uma. A Lagom Berliner Weisse é uma excelente representante do estilo, muito saborosa. Além do típico ácido lático típico do estilo, esse rótulo traz ainda uma agradável cítrico leve que complementa aroma e sabor.

Acredito que a ideia de uma cerveja de trigo que resgate as características do estilo da Berliner Weisse, independentemente da questão da origem - em teoria só poderia ter esse nome a cerveja de trigo feita com fermentação lática na região de Berlin, na Alemanha -, é muito válida e rica para a produção brasileira de cervejas. E deixa nós, cervejeiros, com o paladar muito feliz!

O público encontra muita diversidade nos pavilhões do Festival Brasileiro da Cerveja 2015 (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

O público encontra muita diversidade nos pavilhões do Festival Brasileiro da Cerveja 2015 (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Cerveja, tchê!

Usar a premiação com um guia para saber o que beber em um evento com centenas de opções é uma estratégia bastante usada pelos cervejeiros mais experientes. Nesse segundo dia, continuei minha caça às cervejas gaúchas. E não me arrependi. Estão deliciosas. Além das já mencionadas, provei mais algumas e recomendo: façam o mesmo, durante e após o Festival. Confiram algumas notas de degustação:

  • Seasons Dubbel Dragon - Uma Belgian Dubbel bastante clássica, lembrando frutas passas, como banana passa, no aroma e sabor. Com gosto adocicado, corpo médio e consistência licorosa, tem final meio seco. Foi medalha de prata na categoria.

  • Pacific Extra Pale Ale - Também premiada com medalha de prata na categoria American Pale Ale, a Pacific é chamada pelo pessoal da cervejaria de Extra Pale Ale. Uma cerveja interessante, com lupulada e maltada do que do a média das APAs. Mesmo assim, mantém o frescor cítrico típico dos lúpulos americanos que caracteriza o estilo.

  • Tupiniquim Tripel - Boa cerveja, mais maltada do que a média do estilo Belgian Tripel. Também mais encorpada e menos condimentada. Mas com bastante frutado agradável, lembrando frutas amarelas, como damasco.

  • Tupiniquim Monjolo maturada em barril de cachaça - A versão com adição de madeira dessa Imperial Porter é para os fortes! O barril foi previamente usado em cachaça e o sabor e gosto da bebida passou para a cerveja de forma intensa. O resultado é uma cerveja preta, opaca, com aroma e sabor destacado da bebida brasileira. Os maltes torrados ficam em segundo plano.

  • Lagom Framboise - Medalha de bronze no concurso, essa Fruit Beer é extremamente agradável e saborosa. Usa uma Strong Golden Ale como base, e tem uma linda cor vermelha viva. A fruta se destaca no aroma e sabor, limpa e clara. Na boa, boa acidez de fruta, na medida, equilibrada com frutado e condimentado típicos do estilo.

  • Lagom Imperial Stout com Framboesa - Uma boa Imperial Stout, com cereja discreta e corpo mais leve do que o normal do estilo. Mesmo com a mistura com a fruta, conserva bem a riqueza dos maltes torrados.

  • Barco Folk Double Amber Ale - Trata-se de uma cerveja single hop e single malt. Foi feita usando apenas malte Pale Ale e lúpulo inglês Columbus. Tem aroma acentuadamente herbal em primeiro plano do lúpulo, com leve maltado caramelo o fundo. Na boca, amargor médio alto, repetindo herbal do aroma, mas também com caráter levemente terroso. Corpo médio, final seco e fundo de caramelo. Refrescante e de ótimo drinkability. A beleza da simplicidade.

  • Irmãos Ferraro Loca - Interessante Imperial IPA (segundo a classificação da cervejaria) com lúpulos herbais e terrosos (normalmente elas usam lúpulos mais cítricos). Aroma marcadamente herbal e fundo de caramelo. Na boca, segue o aroma, com amargor elevado e final seco e amargo. Medalha de ouro como English-Style India Pale Ale.

  • Maniba Oatmeal "A Véia" Stout - Medalha de prata na categoria, é uma típica Stout inglesa, normalmente mais “doces” que as versões irlandesas. Preta, opaca, de espuma bege e densa, traz no aroma maltes tostados e torrados, lembrando chocolate ao leite e café leve. Na boca, amargor de malte torrado leve, acidez, final meio seco e retrogosto de chocolate ao leite.

Luís Celso Jr., jornalista e sommelier, é editor do site bardocelso.com

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