Festival Brasileiro da Cerveja tem um início e tanto!

Confira a análise do jornalista e sommelier Luís Celso Jr. Especial para a Beer Art

Festival traz uma diversidade de lançamentos (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Festival traz uma diversidade de lançamentos (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Luís Celso Jr.

Especial para a Beer Art

Blumenau - O Festival Brasileiro da Cerveja começou oficialmente nesta quarta-feira (11) com a abertura da "feira", um dia após a premiação do Concurso Brasileiro da Cerveja, que distribuiu inúmeras medalhas para as melhores cervejas nacionais. Nesse início também foi a primeira oportunidade de conferir várias novidades e lançamentos, que ocorreram em número recorde nesta edição. Tudo isso em um clima de descontração e amizade, como é normal nas quartas-feiras do evento. É difícil até de acompanhar tanta coisa!

Até ano passado, a cerimônia ocorria no primeiro dia do evento. Mesmo com a mudança, persiste a influência das medalhas na escolha do público pelo que degustar no evento. Os estandes de Tupiniquin, Seasons e Bodebrown estavam muito movimentados. Além disso, tradicionalmente o primeiro dia do festival é frequentado por um público mais imerso no meio cervejeiro. São apreciadores mais experientes, outros cervejeiros e profissionais da área. Em grande parte, ávidos pelas novidades e lançamentos. É uma corrida para "provar antes que acabe", já que algumas delas são feitas em pequeníssimos e limitados lotes e muitas vezes não chegam no segundo, terceiro ou quarto dia. Isso também movimentou os estandes mais inovadores, como Morada Cia Etília, Way Beer, Wäls, Invicta etc.

Embarquei também nessa onda para conferir tudo o que fosse possível!

Azedou!

Logo de saída, chama a atenção a quantidade de Sour Ales, cervejas ácidas, presentes no evento - estilo que cresceu muito desde o ano passado. Tive a oportunidade de provar várias. A Tirana Sour Ale, da Tupiniquim, por exemplo, é feita com levedura de champagne. O aroma é ascético e lembra maçã verde leve, com grande quantidade de cítrico também. Com corpo médio leve e final seco, o gosto da boca fica quase salgado. Um cerveja bem interessante, complexa e sutil.

Ainda da Tupiniquim, boa opção para quem gosta dos sabores ácidos é a Berliner Weisse Ich Bin Ein Berliner - "Eu sou berlinense", em tradução livre, nome que faz referência ao discurso do então presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy em apoio à Berlin Ocidental quando foi levantado o muro de Berlin. Provei a versão com maracujá, que estava bem equilibrado entre o sabor da fruta e a acidez lática típica do estilo Berliner Weisse. O caráter de fruta lembra bem a poupa, com sementes e tudo.

Maturada com cajá, com a acidez da levedura selvagem (Foto: Divulgação)

Maturada com cajá, com a acidez da levedura selvagem (Foto: Divulgação)

Novidade na Invicta, a Transatlântica Brett também traz acidez acentuada da levedura selvagem e é maturada com Cajá - foi feita em parceria com o alemão Sebastian Mergel (Bierfabrik) e o belga Sebastien Morvan (Brussels Beer Project) na fábrica de Ribeirão Preto. O resultado é um amargo limpo, sem o funky típico da da levedura, e acidez acentuada pela fruta, que aparece no sabor discretamente.

Na Morada Cia Etílica, um festival de cervejas ácidas também. Destaque para a Gasoline Sour, uma Flanders Red Ale que usou como base a cerveja de linha da marca, a Gasoline Soul, uma Scoth Ale. O processo de incluir uma segunda fermentação ácida na cerveja e maturar em madeira conferiu notas de acidez lática e vinho do porto, com base caramelo. Outra invenção muito interessante é a Sorachi Gose, uma American Oatmeal Gose, segundo a cervejaria, com acidez lática e levemente salgada, como pede o tradicional estilo alemão de Leipzig.

Também provei a Liquid Rio, uma Berliner Weisse com pêssego feita em parceria com a cervejaria norte-americana Stillwater, e a Berliner Rye Cupuaçu, do mesmo estilo com a fruta brasileira. Ambas muito boas, com destaque para o sabor evidente da fruta na segunda.

Sidra, saquê ou cerveja

As maçãs começaram a aparecer no Festival Brasileiro da Cerveja neste ano. A Way Beer trouxe a sua Cider IPA, que leva 45% de maçã e 55% de malte de cevada, sendo fermentada com levedura de sidra mesmo e finalizada com lúpulos ingleses mas terrosos. O resultado é super agradável, com sabor tendendo à maçã verde.

Já na Sauber, a Cider é uma mistura de cerveja de trigo blendada com uma cidra de tangerina. Ambas as bebidas foram feitas em separado e unidas posteriormente, na proporção de 70% cerveja e 30% cidra. Uma opção interessante e refrescante que ainda pode evoluir mais.

Por fim, também da Way Beer, é a Saquê IPA, feita com 45% de arroz e levedura de saquê. O processo é semelhante ao da Cider, mas o resultado é bem diferente. Um agradável e pronunciado gosto da bebida típica japonesa tomou conta da cerveja, enfatizado pelo uso do lúpulo nipônico Sorachi Ace. Vale muito a pena experimentar.

Blendar, blendar, blendar...

E, falando em misturas, está aí mais uma tendência para os próximos anos. Os blends de cervejas, que são misturas de bebidas já prontas no intuito de criar novos sabores. A técnica foi usada em algumas cervejas novas do Festival Brasileiro da Cerveja, mas pode ser ainda muito mais explorada - minha aposta é que será!

A Way Beer trouxe duas, maturadas em madeira ainda por cima, e que estarão disponíveis só no evento. A primeira é uma mistura de duas Barley Wines da casa (Blond Barley Wine e Black Barley Wine), posteriormente maturadas em carvalho. O resultado é forte, quase sem espuma, de cor marrom e sabor acentuado de madeira (sinto uma tosta média agradável, nada muito torrado). Na boca, um frutado típico e doce toma conta, fazendo que lembre frutas vermelhas maduras. Corpo alto completa a obra, com álcool destacada do aroma ao aftertaste.

A segunda é uma longa história: trata-se de uma Fruit Sour com mertilo, framboesa e morango, fermentada com lactobacillus, pediococcus e brettanomyces lambicus; que foi blendada com uma Fruit Stout com atemoia maturada em barril de Bourbon; e também uma Black Barley Wine em barril de cachaça Porto Morretes. Ufa! O resultado? Uma sour frutada, lembrando bem as frutas vermelhas, com acidez acentuada e até um leve salgado, corpo leve e final seco. Instigante!

Quem também trouxe uma mistura foi a Bodebrown com a sua Blend of Ales. Ela mistura 45% de Wee Heavy, 45% de Monfort Rye IPA e 10% de Imperial Stout. A cerveja também ficou agradável, misturando caramelo e maltes torrados com o frescor do lúpulo.

Frutas

Fruit Beers também têm sua vez. Com tantas novidades, foi difícil provar mais desse estilo no primeiro dia. Mesmo assim, consegui duas: Cupulate Porter, parceria ente Amazon Beer, Bodebrown e De Bora; e Weird Barrel Bad Luck, uma Pale Ale com morango, framboesa, amora e pitanga.

A primeira apresenta algo semelhante ao Cacau no aroma e sabor, no entanto mais torrado - não tenho a referência do Cupulate por nunca ter provado isso! E agradável, principalmente quando misturado a uma ótima cerveja base, que é uma Porter complexa e bem feita, com maltes tostados e torrados. Uma cerveja rica em aromas e sabores. Bem interessante.

A segunda é uma Fruit Beet para refrescar, com frutado leve e fresco, lembrando frutas vermelhas e principalmente pitanga, leve acidez e bem seca no final do gole, aumentando ainda mais a sensação de refrescância. Uma cerveja, como diz Rafael Moschetta, um dos sócios da cervejaria, para o calor de Ribeirão Preto.

Luís Celso Jr., jornalista e sommelier, é editor do site bardocelso.com