Lugar de mulher é no tanque... de fermentação

Texto do poeta e cervejeiro Vinícius H. Masutti se inspira na recorrente polêmica cerveja/mulher

No Egito Antigo, dezenas de séculos antes das propagandas de tevê, as mulheres já eram retratadas com cerveja, mas com um enfoque bem diferente (Foto: Reprodução)

No Egito Antigo, dezenas de séculos antes das propagandas de tevê, as mulheres já eram retratadas com cerveja, mas com um enfoque bem diferente (Foto: Reprodução)

Vinícius H. Masutti

Lugar de mulher é no tanque...

...de fermentação das cervejarias, acompanhando a evolução das suas criações. Mulher tem mesmo é que lavar as panelas de mostura, onde antes aqueceram a água e ferveram o mosto da futura cerveja. Lugar de mulher é servindo o homem e outras mulheres, quando executa seu ofício de sommeliére. Mulher não entende de cerveja, quem tem que entender são vocês porque a mulher é mãe da cerveja e mãe sabe.

A mulher, esse ser progenitor que nos deu a vida, é também quem deu à civilização a cerveja, nosso tão amado fermentado. Nos primórdios, era ela a responsável pela alimentação do bando, e portanto do cultivo e colheita dos grãos. Foi ela quem pela primeira vez cozinhou cereais, tornou-os malte e por fim, serviu-nos de cerveja e foi assim por milênios até alguns séculos, quando por alguma desinteligência, o homem tomou a posição, e assumiu o posto, excluindo-as da função (que elas mesmas criaram), porque a função começava a ser lucrativa. Mais ou menos como aconteceu na gastronomia.

Na produção da cerveja, é usada a levedura, que não tem sexo, mas tem pronome feminino. Também usamos o lúpulo que, apesar do pronome masculino, apenas a flor da fêmea é usada, porque é ela que produz em abundância a lupulina e os óleos essenciais, responsáveis pelas características organolépticas que tanto nos agradam e físico-químicas que tanto almejamos. Aliás, a responsável pela re-descoberta e disseminação dessa plantinha que adoramos, foi Hidelgarda de Bingen, uma monja beneditina, hoje santa cervejeira que além de excelente botânica, era grande poetisa e.uma mulher inspiradora, o que soa como pleonasmo. Ninkasi, era a deusa da cerveja para os sumérios, e lá, na mesopotâmia, elas, exclusivas produtoras de cerveja tinham posição privilegiada e de grande prestígio.

Aqui nas Américas, inúmeras tribos produziam seus fermentados, como a famosa chicha, bebida produzida a partir do milho e a Cauim, produzida a partir da mandioca. Ambas as “cervejas” são responsabilidade da mulher, e são elas, e apenas elas que as preparam. No processo, as mulheres mastigam o milho e/ou a mandioca previamente cozidas, e cospem num recipiente para então fermentarem e fazem isso por que enzimas presentes na saliva quebram o amido e o torna açúcar fermentável. Os homens dessas tribos, acreditam que o resultado nunca será o mesmo, se eles mastigarem, portanto só as mulheres teriam essa capacidade mística.

Mas, por algum motivo, infeliz e lamentavelmente, algumas pessoas nutrem um pré-conceito (que por definição é burro) com as mulheres, em todas as esferas, o que já é um absurdo sem tamanho, mas também acontece no círculo da cerveja, o que é ainda pior, porque demonstra total falta de conhecimento histórico, de inteligência e claro de respeito.

Grande parcela dessa visão tortuosa que algumas pessoas têm sobre as mulheres e sobretudo, da relação das mulheres e a cerveja, vem das péssimas campanhas publicitárias de cervejas massificadas, que objetificam a mulher e as representam apenas como um corpo (quase sempre seminu) que tem a finalidade de fornecer cerveja ao homem. Não vou entrar em detalhes sobre esse tipo de baixa publicidade, porque há muito para se falar e isso fica para o próximo texto, mas hão de perceber que esse tipo de empresa, não tem nenhum comprometimento e respeito com a cultura cervejeira, que dirá com a mulher, portanto, também não merecem respeito e muito menos seu dinheiro.

O olfato e o paladar da mulher é constituído exatamente pelas mesmas células que o dos homens, as papilas gustativas são as mesmas, o cérebro da mulher é idêntico ao do homem, portanto ambos os sexos têm exatamente a mesma capacidade intelectual e sensorial, logo não existe cerveja de mulher ou para mulher, pra começar. Sempre que me perguntam isso, digo que esse estilo não está em nenhum dos guias, não foi catalogado, porque não faz sentido, e você, por favor não faça essa pergunta, pergunte a mulher quais sabores lhe agradam mais ou melhor ainda, pergunte o que ela quer beber e pronto.

A mulher é parte fundamental na história da cerveja e da humanidade, portanto tenha mais respeito com elas, em qualquer local e situação, mas já que aqui falamos de cerveja, não subestime a sommeliére á sua frente nem a cervejeira por trás da cerveja, muito menos a mulher à mesa, que quer beber uma boa cerveja, tanto quanto você. Temos aqui no Brasil grandes mulheres nessas funções, excelentes profissionais com as quais aprendi muito. Saúdo todas aqui e me desculpo se algum troglodita foi ofensivo com vocês. Um brinde as mulheres sempre... e com a cerveja que elas quiserem.

Vinícius H. Masutti combina duas paixões, cerveja e arte (Foto: Divulgação)

Vinícius H. Masutti combina duas paixões, cerveja e arte (Foto: Divulgação)