Casal monta cervejaria para financiar projetos humanitários

Robert e Fernanda pesquisando e degustando cerveja na Bélgica (Foto: Arquivo Pessoal)

Robert e Fernanda pesquisando e degustando cerveja na Bélgica (Foto: Arquivo Pessoal)

Por Fábio Schaffner

Nos últimos anos, Fernanda Menna Barreto Krum e Robert Rivers participaram de missões humanitárias nos mais longínquos países, ajudando vítimas de conflitos armados, de intolerância religiosa e de desastres naturais. Cansado de testemunhar tanta dor e sofrimento, o casal quer continuar atuando em ações sociais, mas agora no comando de uma cervejaria. Em março, eles inauguram nos Estados Unidos a Big Medicine Brewing Company (www.bigmedicinebrewing.com), um mix de microcervejaria, bar e centro de treinamento comunitário. A experiência em voluntariado foi valiosa: sem dinheiro para montar a fábrica, eles criaram um sistema de financiamento coletivo que arrecadou mais de 20% do capital inicial. Essa história é contada na edição de dezembro da revista BeerArt, disponível para baixar gratuitamente em iPad e iPhone.

Formada em Psicologia, com mestrado em Recuperação Emocional Pós-desastres, Fernanda deixou o Brasil em 2007. Queria desbravar o mundo trabalhando em organizações de socorro social. A serviço da entidade de proteção civil Non Violent Peace Force (nonviolentpeaceforce.org), foi parar na Romênia, onde conheceu Robert, um norte-americano graduado em Teologia e Literatura Inglesa e mestre em Processos de Construção de Paz e Transformação de Conflitos.

Desde então, são cinco anos quase ininterruptos de viagens por lugares conflagrados como o Azerbaijão, as Filipinas, o Sri Lanka, a Armênia, o Sudão do Sul e a Palestina.

“É recompensador, mas muito pesado. Começamos a pensar em fazer algo diferente do que trabalhar em áreas de conflito”, diz Robert.

A transição profissional começou a ser planejada em 2009, durante as férias prolongadas que eles passaram no Rio Grande do Sul. Em um bar de Gramado, na serra gaúcha, conversavam com amigos sobre qual seria a melhor opção para começar um negócio próprio.

“A gente estava tomando uma Eisenbahn quando o Robert perguntou do que as pessoas mais gostam. Todos responderam que era cerveja. Então pensamos em criar a primeira cervejaria do mundo que ministra treinamentos para projetos sociais”, recorda Fernanda. Foram quatro anos de planejamento. A princípio, a ideia era montar a cervejaria no Brasil. A burocracia e a elevada carga de impostos tornaram o empreendimento proibitivo. Fernanda e Robert preferiram se aventurar no mais competitivo mercados das artesanais, os Estados Unidos, onde em média são abertas duas novas microcervejarias por dia.

Eles fixaram residência em Missoula, cidade natal de Robert, incrustada nas montanhas do noroeste americano, quase na fronteira com o Canadá. De lá, passaram a prospectar investidores e a organizar uma teia de contatos. O orçamento previu a necessidade de US$ 380 mil para começar as operações. A saída foi recorrer à comunidade local, uma das mais progressistas no conservador Estado de Montana.

Criando planos de contribuição, eles aceitavam quantias que variavam de US$ 12 a US$ 10 mil. Em troca, os doadores recebiam desde um adesivo – no pacote mais simples – até mesmo direito de tomar chope a um centavo o copo para o resto da vida e batizar com o próprio nome uma cerveja da fábrica, além de outros benefícios. Para divulgar a campanha, produziram um vídeo (http://vimeo.com/68785661).

A motivação nobre encontrou respaldo na região, e eles angariaram US$ 85 mil em contribuições individuais. Os US$ 300 mil que faltam virão de um empréstimo.

O plano de negócios prevê a fabricação de 600 barris por ano (em torno de 70 mil litros), com um incremento anual de 15%, até a produção máxima de 1 mil barris. Serão três estilos com produção permanente – uma IPA, uma Cream Ale e uma Stout irlandesa – e outros quatro sazonais.

A bebida não será engarrafada, mas vendida apenas do bar da cervejaria. Como a legislação de Missoula só permite a venda de bebida alcoólica das 12h às 20h, o casal pretende usar o tempo disponível ministrando cursos, workshops e trabalhando de forma voluntária no sistema de saúde local. Outro foco serão as reservas indígenas da região, onde 12 etnias diferentes vivem em estado de exclusão social, com graves problemas de violência e ‒ por ironia ‒ alcoolismo.

“Algumas pessoas questionaram por que estávamos pedindo dinheiro para montar um negócio particular. Não é esse o espírito da Big Medicine. Todo o lucro da cervejaria será revertido para o centro de treinamento e as ações humanitárias. Tanto que a comunidade respondeu muito bem aos nossos pedidos e uma cervejaria da região está nos dando, de graça, uma consultoria no valor de US$ 100 mil. Os cervejeiros são as pessoas mais legais do mundo”, festeja Fernanda.

Nada que a gente já não soubesse.

Fernanda e Robert com o grupo de trabalho do Sri Lanka - Proteção Civil com a ONG Nonviolent Peaceforce (Foto: Arquivo Pessoal)

Fernanda e Robert com o grupo de trabalho do Sri Lanka - Proteção Civil com a ONG Nonviolent Peaceforce (Foto: Arquivo Pessoal)

Robert leciona sobre Transformação de Conflitos, no Mestrado,na Áustria (Foto: Arquivo Pessoal)

Robert leciona sobre Transformação de Conflitos, no Mestrado,na Áustria (Foto: Arquivo Pessoal)

Fernanda com o time de saúde mental dos Médicos Sem Fronteiras na Palestina (Foto: Arquivo Pessoal)

Fernanda com o time de saúde mental dos Médicos Sem Fronteiras na Palestina (Foto: Arquivo Pessoal)

Robert treinando civis para trabalhar com manutenção pela paz não armada no Sudão do Sul (Foto: Arquivo Pessoal)

Robert treinando civis para trabalhar com manutenção pela paz não armada no Sudão do Sul (Foto: Arquivo Pessoal)

Fernando com o grupo de conselheiros locais para vítimas de tortura no Congo (Foto: Arquivo Pessoal)

Fernando com o grupo de conselheiros locais para vítimas de tortura no Congo (Foto: Arquivo Pessoal)