O grande festival de cervejas do Brasil

Na sexta edição, o Festival Brasileiro da Cerveja, de Blumenau, confirmou relevância internacional, como mostra o jornalista e sommelier Luís Celso Jr., que cobriu o evento para a BeerArt

O público pôde aproveitar cerveja, comidas típicas, shows, palestras e workshops, conferir mais de 20 lançamentos de produtos, brassagens abertas, concurso de rótulos e o II Concurso Brasileiro da Cerveja (Foto: Ricardo Jaeger)

O público pôde aproveitar cerveja, comidas típicas, shows, palestras e workshops, conferir mais de 20 lançamentos de produtos, brassagens abertas, concurso de rótulos e o II Concurso Brasileiro da Cerveja (Foto: Ricardo Jaeger)

Luís Celso Jr.

Blumenau

O Festival Brasileiro da Cerveja 2014 reuniu cerca de 35 mil pessoas e ocupou dois setores do Parque Vila Germânica em Blumenau, Santa Catarina, entre 12 e 15 de março. Em sua sexta edição, ele se consolida como o maior evento de cervejas do país ‒ e também o maior da América Latina ‒, com 106 expositores e cerca de 600 rótulos, trazendo a diversidade de tipos, aromas e sabores da produção cervejeira nacional (e algumas internacionais) para que o público tudo em um só lugar.

Todo o ano, o festival vira também uma animada festa. E não poderia ser diferente se tratando de cerveja. O público pôde aproveitar as cervejas tanto quanto comidas típicas, shows, palestras e workshops, conferir mais de 20 lançamentos de produtos, brassagens abertas, concurso de rótulos e o II Concurso Brasileiro da Cerveja, que premiou 118 cervejas nacionais com medalhas de ouro, prata e bronze. Os expositores aproveitam a ocasião para fazer contatos, parcerias, produções colaborativas, negócios, reuniões e, claro, confraternizar. São raras as oportunidades de reunir tantos em um só ambiente.

A Revista BeerArt esteve no evento e selecionou para vocês alguns dos principais destaques.

Com 106 expositores e cerca de 600 rótulos, a Vila Germânica reuniu a diversidade de tipos, aromas e sabores da produção cervejeira nacional (e algumas internacionais). Foto: Ricardo Jaeger 

Com 106 expositores e cerca de 600 rótulos, a Vila Germânica reuniu a diversidade de tipos, aromas e sabores da produção cervejeira nacional (e algumas internacionais). Foto: Ricardo Jaeger 

A Melhor Cerveja é bem brasileira

Criadora da Stout Açaí, escolhida a Cerveja do Ano, a equipe da Amazon Beer festeja a conquista (com o prefeito de Blumenau, Napoleão Bernardes, e o mestre-de-cerimônias, Sady Homrich), (Foto: Ricardo Jaeger)

Criadora da Stout Açaí, escolhida a Cerveja do Ano, a equipe da Amazon Beer festeja a conquista (com o prefeito de Blumenau, Napoleão Bernardes, e o mestre-de-cerimônias, Sady Homrich), (Foto: Ricardo Jaeger)

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O número de cervejas inscritas no II Concurso Brasileiro da Cerveja praticamente dobrou em relação à primeira edição e chegou a 414 rótulos. Dessas, foram premiadas 118 cervejas, entre 57 medalhas de bronze, 38 de prata e 23 de ouro ‒ para as que pontuaram entre 80 e 100 na avalição do júri, composto por 30 juízes nacionais e internacionais. A eleita melhor cerveja do ano foi um rótulo bem brasileiro: Amazon Beer Stout Açaí, cerveja do estilo Sweet Sout com a fruta brasileira. Preta, encorpada, relativamente amarga com sabor de maltes torrados, notas de café e chocolate, a bebida traz o sabor da fruta discretamente em segundo plano, fazendo da bebida um harmonioso conjunto.

A união faz a força

A Cervejaria do Ano pelo segundo ano consecutivo foi a Bodebrown, de Curitiba (PR), com 10 medalhas (uma de ouro, seis de prata e três de bronze), confirmando a posição de cerveja inovadora e de produção excepcional. Em segundo lugar, veio a Brasil Kirin (uma de ouro, quatro de prata e duas de bronze), premiada com sete medalhas pelas marcas Eisenbahn e Baden Baden. Em terceiro, a Gauden Bier, também de Curitiba, com seis prêmios (duas medalhas de ouro, duas de prata e duas de bronze).

O resultado mostra que a união faz a força. As três cervejarias produzem mais de uma marca. A Bodebrown teve entre seus prêmios duas medalhas para a De Bora, de Imbituva (PR), que terceiriza produção na sua fábrica. O Grupo Brasil Kirin hoje tem três cervejarias artesanais em seu portfólio e a Gauden Bier faz a produção terceirizada de receitas de diversas cervejarias do Paraná e região. Merece menção também a Cevejaria Colorado, que teve mais medalhas de ouro: três ao todo.

Madeira!!!

Um dos destaques do festival e tendência no Brasil hoje são as cervejas maturadas em madeira. A Bodebrown levou cinco diferentes rótulos, servidas no seu estande. Destaque para a Imperial Stout maturada em barril de Bourbon, medalhista de ouro na competição, e para a 4 Blés maturada também em Bourbon. Do lado da Colorado, a Ithaca Oak Aged também levou ouro. Trata-se também de uma Imperial Stout, no entanto envelhecida em carvalho.

Café verde na cerveja verde e amarela

Cervejas com maltes escuros, torrados, naturalmente lembram café. No entanto, cervejas que realmente levam café na receita são bem mais raras. Por isso dois lançamentos chamam atenção: Hop Arábica, da Morada Cia. Etílica, de Curitiba, e Dama Bier Coffee IPA, da cervejaria de Piracicaba (SP). Ambas são claras, o que naturalmente causa um certo estranhamento em quem está acostumado às versões escuras. Além disso, as duas usam café com baixa torrefação, o que deixa a acidez mais elevada e os aromas lembrando mais o fruto café do que sua torrefação (uma experiência muito mais rica em aromas e sabores).

A Hop Arábica é uma Blond Ale produzida com equilíbrio delicado entre o café e os aromas fenólicos e frutados da cerveja belga. Já a Dama Bier tem amargor mais agressivo da American IPAs e aromas cítricos, dos lúpulos americanos, bem contextualizados com o café mais "verde" e ácido. Essa última foi produzida colaborativamente em janeiro por uma união de cervejeiros brasileiros uma comitiva de estrangeiros que vieram ao Brasil para participar do Beer Train. Além da equipe da Dama Bier, participaram Samuel Cavalcanti (Bodebrown), os norte-americanos Chris Kirk (Great Divide/Moffat Sation) e Tyler Joyce (Great Divide/Mile High), o belga Greg Murer (La Brasserie Fleurac e Beryllium Erbium) e a mexicana Laura Rudth, chef de renome internacional especializada em cacau e chocolate.

Witbiers

O estilo Witbier ‒ cerveja de trigo de tradição belga com cascas de laranja e coentro ‒ é sem dúvida um dos que mais renderam novidades neste ano no Festival Brasileiro da Cerveja. Houve aumento até mesmo nas inscrições no Concurso Brasileiro de Cerveja de 2014. Isso mostra a preocupação das cervejarias em terem cervejas leves mas também mais elaboradas, com diferenciais em relação aos estilos mais tradicionais.

Entre os lançamentos, estiveram a Baden Baden Witbier, feita com extrato natural das cascas de laranja, o que lhe dá um sabor diferenciado, lembrando o famoso licor de laranja Cointreau; Bierland Oceânica, com coentro mais evidente, feita em parceria com Rafael Bertges Silva de Carvalho e Caio Delgaudio, vencedores do Concurso Cervejeiro Caseiro Bierland do ano passado; Schornstein Blanche de Maison, edição limitada elaborada com receita a receita de Douglas Merlo e Giovani Testoni, vencedores do II Concurso Estadual da Acerva Catarinense; E DUM Grand Cru, uma Double Witbier, mais intensa em sabores e alcoólica (9%), da cervejaria DUM Cervejaria, do Paraná.

A hora e a vez das Session Beers

As Session Beers, cervejas de estilos diversificados com teor alcoólico reduzido, estão pipocando entre as cervejarias artesanais no Brasil. Após o lançamento de alguns rótulos no Mondial de La Bière em novembro no Rio de Janeiro, como Bodebrown Verum Session Pale Ale e 2Cabeças Funk IPA, as cervejarias artesanais apresentam mais algumas novidades no festival de Blumenau.

É o caso da mineira Wäls com sua Session Citra, uma Session IPA single hop, feita com apenas esse tipo de lúpulo americano. Outro lançamento refrescante é a Session IPA da paranaense F#%*ing Beer. Há até Session Stout, cerveja escura de maltes torrados. É o caso da Limbo, da Seasons, do Rio Grande do Sul.

Mais refrescantes e suaves do que os estilos base, muitas vezes também em corpo e amargor, as Session Beers se tornam bebidas muito agradáveis para dias quentes e podem ser bebidas em períodos mais longos e em maior volume sem haver intoxicação pelo álcool. Aliás, é daí que vem o nome dessa categoria de cervejas. Session significa sessão em inglês.

Brassagens colaborativas e confraternização

Cervejeiro da Das Bier's, Antônio Soares de Sousa observa a Roggen Kölsch, colaborativa que usa o centeio no lugar do trigo (Foto: Ricardo Jaeger)

Cervejeiro da Das Bier's, Antônio Soares de Sousa observa a Roggen Kölsch, colaborativa que usa o centeio no lugar do trigo (Foto: Ricardo Jaeger)

A Roggen Kölsch em produção (Foto: Ricardo Jaeger)

A Roggen Kölsch em produção (Foto: Ricardo Jaeger)

O termo brassagem colaborativa está cada vez mais em voga no universo das artesanais no Brasil. Trata-se da união de cervejeiros para fazerem uma cerveja. Acontece normalmente em fábricas, e não poderia faltar no Festival Brasileiro da Cerveja. Uma delas ocorreu na Bierland, em Blumenau, entre seus proprietários e cervejeiros da Argentina, da cervejaria Antares. O produto que vai sair de lá é uma American Pale Ale com lúpulos da Patagônia e guaraná brasileiro. Uma outra ocorreu na Das Bier, em Gaspar, município próximo, com a Bodebrown e a Morada Cia. Etílica. O que vai sair de lá é uma Roggen Kölsch, que utiliza centeio no lugar do trigo do estilo tradicional de Colônia, na Alemanha.

Em ambos os casos diversos outros cervejeiros ‒ proprietários de cervejarias, sommeliers, fãs e amigos, empresários do setor, etc ‒ de várias partes do país estiveram presentes. O que faz desse tipo de evento uma grande confraternização. Merecida, aliás, para quem veio ao Festival trabalhar e muito. Também houve brassagem aberta da Acerva Catarinense, em frente à entrada do evento, que buscou divulgar a cultura de se fazer cerveja em casa; e na cervejaria Schornstein, de Pomerode, com os membros da Associação Italiana dos Degustadores de Cerveja.

Cervejas ácidas de sucesso

Algumas cervejas ácidas também marcaram presença no festival, apontando essa tendência em terras tupiniquins e fazendo fizeram sucesso com o público. É o caso da linha Sour Me Not da Way Beer, do Paraná. São três Sour Ales com frutas: morango, acerola e graviola. Todas secas, com acidez elevada, bem carbonatadas e de baixo teor alcoólico (cerca de 3,5%), se mostrando refrescantes e surpreendentes para os paladares menos acostumados com essas versões.

A Morada Cia Etílica também levou uma Sour, batizada de Wheat Wine Sour. Trata-se de uma mistura de uma cerveja de trigo teor alcoólico de 9,3% em barris diversos, como amburana e carvalho. O resultado é também surpreendente, com acidez e madeira em destaque. Mas essa infelizmente não tem previsão para ser comercializada.

O terceiro destaque vai para a Abadessa, do Rio Grande do Sul, ao explorar o estilo Gose, tipo de cerveja ácida alemã típica da cidade de Leipzig, que se diferencia também por ser salgada – a água do rio que corta a cidade é salobra, e a cerveja foi criada assim. Uma experiência diferente e agradável de um estilo que quase não existe mais.

O mago italiano dos temperos

Federico Casari, da microcervejaria italiana Croce di Malto, abriu os debates no Festival Brasileiro da Cerveja (Foto: Ricardo Jaeger)


Federico Casari, da microcervejaria italiana Croce di Malto, abriu os debates no Festival Brasileiro da Cerveja (Foto: Ricardo Jaeger)

Federico Casari, da microcervejaria italiana Croce di Malto, abriu a sequência de palestras do Festival Brasileiro da Cerveja já no segundo dia do evento. Ele esbanjou conhecimento ao explicar como usar temperos na cerveja, sua especialidade, na palestra Inovação em Cerveja que ocorreu na Escola Superior de Cerveja e Malte, em Blumenau (SC).

O processo não é simples. Usa painéis de análise sensorial com métodos quantitativos e qualitativos, muitos testes e estudos. Algo essencialmente empírico. Mas que depende também da sensibilidade do cervejeiro sobre como, quanto e onde utilizar os temperos. Não à toa Federico pode ser chamado de mago dos temperos.

Ele deu também algumas dicas sobre os temperos que usa nas cervejas da Croce di Malto. No entanto, sempre com cuidado de não mencionar o nome e não revelar o segredo (deu apenas espécie e origem). Ficou apenas o gostinho de saber um pouco mais do segredo do feiticeiro.

“Tenho Lambic no sangue”

Lorenzo Dabove é especialista em cervejas belgas de fermentação espontânea (Foto: Luís Celso Jr.)

Lorenzo Dabove é especialista em cervejas belgas de fermentação espontânea (Foto: Luís Celso Jr.)

Uma das últimas palestras do Festival Brasileiro da Cerveja foi uma das mais importantes. "Lambic: os segredos da fermentação espontânea" teve como palestrante Lorenzo Dabove, um dos maiores ‒ se não o maior ‒ especialistas mundial em Lambics, cervejas belgas ácidas de fermentação espontânea. “Sou doente por Lambic e hoje vou infectar vocês", diz Lorenzo, que lamentou apenas não ter cervejas desse estilo para servir para a plateia. "Talvez se eu me cortar. Afinal, tenho Lambic no sangue." Com simpatia, ele conquistou o público, que o acompanhou do início ao fim, com explicações básicas sobre o estilo e referências sobre essa cerveja na arte e pinturas europeias.

Sorvete de cerveja

O calor contribuiu para os visitantes descobrirem os gelatos, sorvete com graduação alcoólica (Foto: Luís Celso Jr.)

O calor contribuiu para os visitantes descobrirem os gelatos, sorvete com graduação alcoólica (Foto: Luís Celso Jr.)

Blumenau é uma cidade quente. Durante a sexta edição, o calor apareceu mesmo no sábado, último dia do evento. Mas veio com força, superando os 31° C. Isso sem dúvida aumentou ainda mais a procura pelas cervejas mais refrescantes, como os novos lançamentos de Witbier e Session Beers. E também fez muitos descobrirem os sorvetes de cerveja. Sim, eles existem! No evento, foram trazidos pela Gelataio, empresa de Curitiba especializada em gelatos italianos artesanais. E são até alcoólicos. Para cada litro de sorvete, é usada a mesma proporção massa, gerando sorvete com a metade da graduação alcoólica da bebida original. É possível fazer de vários estilos de cerveja e rótulos diferentes.

Os gaúchos

A presença das cervejarias gaúchas também chamou a atenção nesta sexta edição do Festival Brasileiro da Cerveja. Principalmente pelos produtos muito bem elaborados. Destaque para a Black Metal IPA, da Maniba, que levou medalha de ouro no concurso. Trata-se de uma versão de IPA escura pela adição de maltes torrados. Outra boa pedida é a Kojak American IPA da cervejaria Baldhead, com boas e frestas notas de aromas cítricos do lúpulo e amargor limpo. A cervejaria Babel também levou ótimas cervejas, com destaque para a ESB, bastante clássica do estilo. Outra boa inglesa é a IPA da Lagom, servida bom bomba de mão, tal qual nos pubs britânicos.

Rumo a 2015

O Festival Brasileiro da Cerveja de 2015 será de 11 a 14 de março, no mesmo local, o Parque Vila Germânica, em Blumenau (Foto: Ricardo Jaeger)

O Festival Brasileiro da Cerveja de 2015 será de 11 a 14 de março, no mesmo local, o Parque Vila Germânica, em Blumenau (Foto: Ricardo Jaeger)

O Festival Brasileiro da Cerveja de 2015 já tem data para acontecer. Será entre os dias 11 e 14 de março no mesmo local, o Parque Vila Germânica, em Blumenau. Uma das grandes novidades de 2014 foi a utilização de dois setores para o evento, que deu mais conforto aos visitantes e expositores. E a organização já cogita da possibilidade de fazer o evento crescer ainda mais, antecipando a venda de estandes e ocupando três setores. “Tivemos 26 cervejarias que ficaram de fora. Se a demanda do mercado cervejeiro for de ampliação, atenderemos com mais um setor”, aponta o presidente do Parque Vila Germânica e da comissão organizadora do evento, Ricardo Stodieck.

Ricardo também acredita que o Festival Brasileiro da Cerveja já dá os primeiros passos rumo à internacionalização. “Durante 2013 visitamos feiras nacionais e internacionais do setor para gerar relacionamento com as cervejarias e trazer a expertise do mundo para Blumenau. Tenho certeza que logo o evento estará posicionado entre os mais procurados do mundo”, diz.