Saint Bier: O Mosteiro cresceu

Cervejaria amplia volume e opções das artesanais

Em expansão, a Saint Bier triplicou a capacidade produtiva (Foto: Sarah Buogo/Beer Art)

Em expansão, a Saint Bier triplicou a capacidade produtiva (Foto: Sarah Buogo/Beer Art)

Sarah Buogo (texto e fotos)

Forquilhinha – Recentemente, a Saint Bier passou por uma importante ampliação da sua estrutura física. Triplicou sua capacidade, produzindo atualmente 2,5 milhões de litros/ano, com possibilidade de crescer ainda mais. Ampliou consideravelmente também o leque de equipamentos associados à melhoria da qualidade. O crescimento veio a partir de investimentos em parceira com um novo grupo. Isso possibilitou a ampliação do parque fabril, em Forquilhinha, no sul catarinense, com aquisição de novos equipamentos. Ao quadro de profissionais já existente foram agregados novos valores que estão ajudando a otimizar a gestão.

Quem apenas visualiza a fachada da cervejaria pode acabar ignorando a dimensão da sua estrutura. A construção, de dois andares, abriga um pub que serve pratos da gastronomia local e todos os estilos de cerveja produzidos pela fábrica. Esse Pub é dividido em três ambientes, decorados com coleções de garrafas, tampinhas e bolachas de cervejas do mundo todo, que por si só valem a visita. A parte administrativa da cervejaria fica no andar superior. Na área industrial, além de equipamentos modernos e de grande volume, para produção cervejeira, o espaço conta com um bem equipado laboratório de análises e uma cervejaria piloto, na qual as receitas são desenvolvidas, testadas e aprimoradas. Seguindo o fluxo, é possível ver um moderno setor de envase e packaging, e uma ampla área de estoques e expedição. Em prédio lateral, a área de estoques de matérias-primas é marcada pelos aromas dos maltes e uma câmara fria abriga diferentes variedades de lúpulos.

Com esse salto, a Saint Bier preserva sua preocupação em manter uma produção artesanal de alto volume sem perder seu permanente foco em qualidade. Dentro da estratégia de crescimento e posicionamento no mercado para os próximos anos, a marca pretende inovar em seu portfólio de cervejas e manter suas posições nos estados do sul, ampliar o volume no sudeste e chegar aos estados do centro-oeste, norte e nordeste.

O engenheiro Evandro Janovik, diretor de Operações e mestre-cervejeiro, que acompanhou a Beer Art na visita à fábrica, ressalta:

“A Saint Bier destaca-se principalmente pela qualidade de suas cervejas e da sua gestão. Nosso planejamento está atrelado à evolução contínua de nossos processos e indicadores de desempenho, com o objetivo único de seguir entregando sempre mais e melhores cervejas aos nossos apreciadores. Essa é nossa característica fundamental.”

Graças ao laboratório instalado em janeiro/15, as análises de qualidade, antes feitas fora, agora são realizadas dentro do parque fabril (Foto: Sarah Buogo/Beer Art)

Graças ao laboratório instalado em janeiro/15, as análises de qualidade, antes feitas fora, agora são realizadas dentro do parque fabril (Foto: Sarah Buogo/Beer Art)

Os rigorosos padrões de qualidade estão presentes tanto na parte industrial quanto na proposta de marketing. Para marcar esse novo momento, o ícone da marca, o famoso Monge da Saint Bier, ganhou nova roupagem, com características mais humanizadas, sem perder a personalidade cervejeira, presente em diversos detalhes dos rótulos e materiais de marketing.

Outro ponto chave da nova fase está nas receitas. Tradicionalmente conhecida pelo sabor do “puro malte” e pela produção seguindo a Lei da Pureza Alemã (Reinheitsgebot), a cervejaria inova. O Monge passa a apresentar também receitas que rompem com a Lei de Pureza, e assim uma nova linha intitulada de "Herege". A primeira “indisciplina” dessa nova linha “fora da Lei” foi lançada recentemente e já está no mercado. Trata-se da RIPA, uma India Pale Ale (IPA), que leva a brasilidade da rapadura como ingrediente “herege”.

Há ainda, na série de inovações, a Slimbir, que segue o estilo Radler. Leveza e frescor são as principais características dessa cerveja de trigo com a adição de suco de laranja 100% natural. Com baixo teor alcoólico (2,5%), destaca-se pelo sabor marcante do cítrico, que foge das linhas de uma cerveja tradicional, sem perder o sabor.

“A Saint Bier quer estar inserida no contexto das cervejarias que participam da revolução cervejeira no Brasil. E a revolução é apresentar opções diferenciadas, uma gama de novas cervejas, de diferentes aromas e sabores, ao nosso consumidor", explica Evandro Janovik. “Malte é sagrado, milho é profano.”

E saindo do forno, ou melhor das panelas da cervejaria, a ILA. Uma IPA avermelhada, que faz uso de um ingrediente regional que lhe confere sua cor especial. A cerveja reafirma que o método Herege veio para ficar e vai seguir entregando cervejas inusitadas aos apreciadores. Deve chegar ao mercado em meados de junho.

É a nova fase de uma cervejaria em operação desde 2008, concebida para homenagear o estado e a comunidade que a acolheu. Nestes sete anos é possível perceber uma expansão significativa. A Saint Bier se tornou a casa também da Cerveja Coruja, além de produzir para cervejarias parceiras, como a Barco e a Anner, ambas de Porto Alegre (RS). Em 2015, inicia um novo ciclo, que promete muito mais.

Endereço: Av. 25 de Julho, 1303 – Vila Lourdes, Forquilhinha (SC)

Evandro combina as funções de diretor de Operações e mestre-cervejeiro (Foto: Sarah Buogo/Beer Art)

Evandro combina as funções de diretor de Operações e mestre-cervejeiro (Foto: Sarah Buogo/Beer Art)

 
A nova imagem do monge, ainda mais humanizada e com marcante plantação de cevada e, bem ao fundo, de lúpulo (Foto: Sarah Buogo/Beer Art)

A nova imagem do monge, ainda mais humanizada e com marcante plantação de cevada e, bem ao fundo, de lúpulo (Foto: Sarah Buogo/Beer Art)

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Bierland: Da terra da cerveja às novas fronteiras

A consagrada Bierland se expande a partir de Blumenau (SC) e mira o consumidor de artesanais da outra ponta do país

Cozinha atual passará por uma grande reforma, para duplicar a capacidade de produção (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Cozinha atual passará por uma grande reforma, para duplicar a capacidade de produção (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Texto: Sarah Buogo
Fotos: Ricardo Jaeger
Beer Art 17 - abr/15

Blumenau − Quase 12 anos depois de nascer na germânica “Terra da Cerveja” no sul do Brasil, a Bierland mira o Norte e o Nordeste. É nessas regiões com sotaque tão distinto na outra ponta do país que a cervejaria de Blumenau (SC) concentra boa parte dos esforços de crescimento. Mas, em contraste com outras empresas do ramo, ruma aos novos territórios mantendo a essência desfrutada por seus apreciadores sulinos. Não está nos planos "adaptar" a receita a climas mais áridos ou equatoriais. O objetivo é atender os devotos da cerveja artesanal, cada vez mais numerosos nas regiões do alto do mapa.

Para chegar lá, a Bierland está em plena expansão. Essa transformação se expressa com o incremento do seu portfólio, a ampliação da capacidade produtiva e as conquistas em concursos nacionais e internacionais. Também fica fácil perceber ao visitar a fábrica, em um bairro afastado do centro da cidade do Festival Brasileiro da Cerveja. Nesta visita pelas instalações, a equipe da Beer Art é guiada pelo gerente comercial, Rubens Deeke, um ativista da revolução cervejeira que há pouco mais de dois anos veio reforçar a equipe da cervejaria. Logo na entrada percebe-se que o espaço físico ficou pequeno para acompanhar o ritmo de crescimento. Por isso, ainda para 2015, está previsto o início da ampliação da fábrica. O bar anexo com espaço para degustação dos produtos será deslocado para um novo prédio, cedendo lugar para os setores administrativos e a adega. Um segundo prédio será construído para abrigar a nova cozinha e duplicar a capacidade produtiva atual, de 150 mil litros/mês.

Durante a visita, a fervura da Strong Scotch Ale vencedora do Concurso Cervejeiro Caseiro Bierland em 2014 lança um aroma suave de malte. Um pouco mais à frente, atrás dos grandes tanques que ainda dividem o espaço com a cozinha, a cena inclui o processo de dry hopping (técnica por meio da qual se adiciona lúpulo na fase de fermentação ou na maturação para incrementar o aroma sem aumentar o amargor) de uma Vienna, a melhor cerveja no mundo em seu estilo – como atestam as medalhas de ouro no World Beer Awards de 2014, 2013 e 2012.

Essa história começou em 2003 pela iniciativa de três sócios. Como consequência da influência germânica bem presente, os primeiros estilos eram da escola alemã seguindo a Lei da Pureza. Em 2009, quando a cervejaria iniciou o engarrafamento, outros estilos começaram a ser explorados e a bebida, antes restrita a cidades próximas, ganhou o sul do Brasil e desde então avança para outras regiões. “Hoje estamos praticamente em todos os estados brasileiros", observa Rubens. "O Nordeste e o Norte são os objetivos deste ano, e estamos trabalhando para isso, já temos parceiros de distribuição na Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco e Rondônia”.

A melhor do mundo em seu estilo (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

A melhor do mundo em seu estilo (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Na antevéspera da visita da Beer Art, a Bierland havia sido premiada com quatro medalhas no Concurso Brasileiro de Cervejas. O principal foi o ouro com a American Red Ale, receita que já tinha sido premiada em outros concursos e passou por alguns ajustes para participar da competição em 2015. “Estamos sempre buscando a excelência", resumiu o mestre-cervejeiro Osmar Francisco Faria. "Não tem aquela história de que não se mexe em time que está ganhando, mesmo em cerveja que ganha medalha de ouro sempre tem alguma coisa em que é possível evoluir.”

Endereço: Rua Gustavo Zimmermann, 5.361 Itoupava Central - Blumenau - SC

em produção, a Scotch Ale vencedora do concurso cervejeiro caseiro (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

em produção, a Scotch Ale vencedora do concurso cervejeiro caseiro (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

 
O gerente Rubens Deeke e o mestre-cervejeiro Osmar Faria reforçam a busca pela excelência (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

O gerente Rubens Deeke e o mestre-cervejeiro Osmar Faria reforçam a busca pela excelência (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

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Cevada Pura: Movida a pura paixão

Fundada em Piracicaba em 2001, cervejaria cresceu, abriu novas fábricas e ingressa em 2015 com planos ousados

Além de criar franquias de sua fábrica, a Cevada Pura planeja fechar o ano com 15 rótulos em linha (Foto: Rogério Volgarine @cervejaecomida)

Além de criar franquias de sua fábrica, a Cevada Pura planeja fechar o ano com 15 rótulos em linha (Foto: Rogério Volgarine @cervejaecomida)

Texto: Fabricio Santos - FullPIntBR
Fotos: Rogério Volgarine @cervejaecomida
Beer Art  16 - mar/15

Franquias de lojas de cerveja estão bem disseminadas no mercado brasileiro. Mas você já imaginou uma franquia de fábricas? Pois esse incomum modelo de negócio está em estudo por Alexandre Moraes, sócio proprietário da Cevada Pura. O projeto é uma das mostras da paixão empreendedora dessa cervejaria que ele e o sócio Carlos Alberto Colombo fundaram há 14 anos em Piracicaba (SP).

“Cevada Pura é uma história verídica de quem sempre acreditou e se apaixonou por cerveja", define Alexandre. "O que hoje está sendo comum ao público, como um bom negócio, há 20 anos era bem diferente. A Cervejaria Cevada Pura é, sem dúvida, um sonho bom que virou realidade e resistiu a todos altos e baixos alcançando o sucesso merecido.”

Além de tirar do papel franquias que em outras partes do Brasil garantam a qualidade de produção das atuais 3 unidades fabris, a ideia é fechar 2015 com 15 rótulos em linha. Também está nos planos iniciar a exportação de algumas cervejas.

O ano começou com novos desafios e de cara nova. Com a entrada do expert em marketing cervejeiro Marcos Praça, toda a linha de rótulos começa a ser reformulada, assim como uma nova logomarca passa a estampar as cervejas da Cevada Pura, que trará novidades ao longo do ano, em cervejas próprias e colaborativas.

Colaborativas

Beer Art

A primeira leva de colaborativas será feita com a Cigar City, com a vinda de Wayne Wambles, head brewer da cervejaria de Tampa, na Flórida. Fundada em 2009, a Cigar City foi eleita em 2013 a quarta melhor cervejaria do mundo pelo site RateBeer.com. Este ano foi novamente listada entre as 100 melhores do mundo, assim como três de suas cervejas. Produzirão uma American IPA e uma Brown Ale com adição de café e cacau.

A viabilidade destas colaborativas foi graças a Marcos Praça. Com trânsito no comando da cervejaria norte-americana, ele facilitou a troca de experiências e agora possibilita a nós, os consumidores, provar mais cervejas de cunho internacional a preço e frescor de nacional!

Para chegar até essa condição, a Cevada Pura deu uma série de passos antes. Inaugurada em 2001, começou com chope − atualmente esta produção (somente embarrilamento) chega a 40 mil litros! Com foco em atender à demanda regional por um chope de qualidade, entre 2002 e 2006, a marca ganhou visibilidade e respeito na região de Piracicaba.

O engarrafamento começou em 2007, ainda de forma artesanal e em pequena escala, a fim de atender apenas a sua loja de fábrica e pontos de venda de cidades vizinhas. Em 2008, foi inaugurada sua choperia, também em Piracicaba, com venda exclusiva de Cevada Pura, tornando-se sucesso imediato, e ponto de referência na degustação de cerveja na região.

A maturidade na produção e a consolidação junto ao consumidor fiel à marca ocorreram entre 2009 e 2012. E o salto veio em 2013, com a nova planta produtiva em Piracicaba, com maior capacidade de produção e envase com equipamentos mais avançados.

A chegada ao Nordeste

Com o objetivo de levar os produtos para o Nordeste, foi aberta em 2014 a primeira microcervejaria de Alagoas (Foto: Divulgação)

Com o objetivo de levar os produtos para o Nordeste, foi aberta em 2014 a primeira microcervejaria de Alagoas (Foto: Divulgação)

Em 2014, novos horizontes se abriram com a inauguração da primeira microcervejaria do estado de Alagoas, em Maceió, visando levar os produtos ao mercado consumidor do Nordeste. No mesmo ano, foi inaugurada a primeira franquia “Cevada Pura Express”, em Santa Bárbara D’Oeste (SP).

Agora, é aguardar as novidades para 2015. Não sei de vocês mas eu, sempre ávido por novidades, estou contando os minutos para poder provar estas colaborativas. O charme do caminhãozinho da Cevada Pura nos eventos é um show à parte. Quem aí já bebeu direto do tanque do caminhão? Não sabe o que está perdendo...

Que esta cervejaria siga na sua paixão, pura, como sempre.

A linha atual

As opções (todas em garrafas de 600 ml), o teor alcoólico (ABV) e o amargor (IBU):

Rótulos com nova identidade visual (Foto: Divulgação)

Rótulos com nova identidade visual (Foto: Divulgação)

  • Lemondrop (American Pilsener) − ABV 4,8% e IBU 25
  • English IPA − ABV 6,5% e IBU 45
  • Weizenbier − ABV 5,2% e IBU 15
  • Irish Red Ale − ABV 4,5% e IBU 28
  • Oatmeal Stout − ABV 5,9% e IBU 30
  • Xiki Nu Úrtimo* − ABV 4,8% e IBU 25
  • India Pale Ale (American) − ABV 5,6% e IBU 40

*Pilsen produzida em comemoração aos 40 anos de carreira de dupla sertaneja piracicabana Cezar & Paulinho

Endereço da sede:

Av. Lourenço Ducatti, 301, Vila Rezende, Piracicaba (SP)

Alexandre Moraes, sócio proprietário da cevada pura (FOTO: ROGÉRIO VOLGARINE @CERVEJAECOMIDA)

Alexandre Moraes, sócio proprietário da cevada pura (FOTO: ROGÉRIO VOLGARINE @CERVEJAECOMIDA)

 

A alma da coruja

Solar na parte mais antiga de Porto Alegre é a síntese de uma inquieta cervejaria apegada à cultura e à experimentação. Conheça um pouco desse Centro Cultural Cervejeiro pelo olhar de um de seus guardiões, que preparou este artigo especialmente para a Beer Art

Antigo prédio restaurado pela cervejaria da capital gaúcha aproxima o público dos profissionais da área de produção (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Antigo prédio restaurado pela cervejaria da capital gaúcha aproxima o público dos profissionais da área de produção (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Rafael e Micael, os fundadores da Coruja (Foto: Altair Nobre/Beer Art)

Rafael e Micael, os fundadores da Coruja (Foto: Altair Nobre/Beer Art)

Tiago Eduardo Genehr

Beer Art 15 - fev/15

Quem passa pela frente consegue enxergar um café instalado em uma casa antiga. Começando a visita pelos fundos, pode-se imaginar um laboratório. Atravessando o Solar Coruja, a variedade de atividades impressiona. O Solar Coruja tem uma grande missão, levada muito a sério por seus idealizadores, Micael Eckert e Rafael Rodrigues, fundadores da Cerveja Coruja, em Porto Alegre/RS [que atualmente tem sua produção na fábrica da Saint Bier, em Forquilhinha/SC, que será tema de uma das próximas seções da Fonte].

Em cada canto, algo interessante para olhar (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Em cada canto, algo interessante para olhar (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Neste centro cultural cervejeiro na capital gaúcha, cada canto, cada ambiente, tem algo interessante para olhar. São obras esculpidas por Caé Braga, outras talhadas em madeira pelo “Renegado” Adroaldo Eckert, equipamentos antigos de cervejarias da região, representando tecnologias disponíveis em outras épocas. Vale a pena circular pelo prédio e explorar todas estas facetas, culturais, científicas e cervejeiras.

Um dos objetivos do Centro Cultural Cervejeiro é aproximar o público dos cervejeiros e profissionais envolvidos na produção e distribuição da bebida, e isso ocorre de várias formas. A troca de informações beneficia toda a cadeia produtiva e flui por meio de treinamentos, visitas guiadas, cursos e oficinas. As pessoas têm curiosidade em saber mais sobre as diferentes cervejas e ficam fascinadas ao saber de todo o trabalho envolvido na produção da cerveja, a quantidade de variáveis a controlar, o tempo que leva até chegar ao copo. Morder tipos diferentes de malte e encontrar aquele sabor na cerveja que se toma, sentir o aroma de lúpulo fresco, e lembrar na hora de outros aromas que conhecemos são experiências reveladoras, que nos conectam com algo ancestral na humanidade.

O encontro com a cachaça

Barris nos quais foi maturada cachaça agora estão com cerveja (Foto: Tiago Eduardo Genehr) 

Barris nos quais foi maturada cachaça agora estão com cerveja (Foto: Tiago Eduardo Genehr) 

Um momento inusitado no Solar, em 2014, foi o encontro da cerveja com a cachaça. Três barris de carvalho nos quais a cachaça WeberHaus, de Ivoti (RS), foi maturada agora estão cheios de cerveja, maturando e mesclando os elementos da madeira, cachaça, cerveja e a exposição ao ar. As primeiras degustações, após um período de 2 meses, mostraram notas muito agressivas, ácidas e alcoólicas, atenuadas após meio ano e agora evoluem da forma mais graciosa. E pensar que chegamos a considerar se aquilo realmente teria algum resultado positivo, ou teria que ser jogado fora. A maior parte continua maturando, vale a pena conferir de perto e sentir o clima de adega antiga. Os aromas que encontramos nestas cervejas envelhecidas nos fazem imaginar como eram as cervejas de antigamente. O prédio que abriga o Solar Coruja, construído em 1906, tinha na parte de baixo espaço destinado a depósito de mantimentos e o trabalho dos serviçais, já que a família habitava a parte de cima. Quem sabe se, já naquela época, não haviam barris, provavelmente de carvalho, cheios de cerveja ou vinho, maturando ali no mesmo lugar?

Uma experiência similar ocorre na fábrica, apenas em outra escala, sob controle dos cervejeiros de lá. Resultados obtidos lá e aqui podem depois ser comparados, gerando informações e resultados de forma mais consistente.

A intrigante Proporção Áurea, familiar aos arquitetos proprietários da cervejaria, também inspirou receita (Foto: Reprodução)

A intrigante Proporção Áurea, familiar aos arquitetos proprietários da cervejaria, também inspirou receita (Foto: Reprodução)

O encontro de arquitetos com cervejeiros resultou em algo transcendental. Com inspiração na Proporção Áurea, a sequência de Fibonacci, os maltes e lúpulos foram escolhidos, as rampas de brassagem e fermentação foram desenhadas, e nasceu a Cerveja Áurea. Arquitetos ligados ao IAB/RS – Instituto dos Arquitetos do Brasil, com os cervejeiros da Coruja, pensaram muito sobre este projeto, muito mesmo, tanto que a cerveja leva ainda a marca do pensamento na forma de um ingrediente. Como se vê nos quadrinhos, o pensamento se assemelha a uma fumaça, ao redor da cabeça, e para representar isto o malte defumado foi acrescido na infusão.

A cerveja 100% nacional

Tiago adiciona o lúpulo durante a produção da cerveja 100% brasileira (Foto: Divulgação)

Tiago adiciona o lúpulo durante a produção da cerveja 100% brasileira (Foto: Divulgação)

Quando se encontram especialistas em cerveja e seus ingredientes, surgem ideias inovadoras também. A partir da plantação de lúpulo de um cervejeiro, vem a ideia de fazer uma cerveja com ingredientes totalmente nacionais, e ainda por cima oriundos do estado. Foi uma das experiências realizadas no Solar Coruja, divulgada pela Revista Beer Art. A cerveja, brassada em 20 de setembro, data alusiva à Revolução Farroupilha, não tem nenhum intuito comercial, a princípio, e mesmo sendo uma brassagem pequena, representa um grande passo para a construção da tradição cervejeira local. Mais experiências desse tipo estão sendo criadas, e embora não se tornem produtos comerciais, disponíveis ao público, com certeza promovem também a união de diversos conhecimentos. O potencial de aprendizagem, mesmo nestes momentos informais, é muito valioso para quem é curioso e quer evoluir no meio, seja profissional ou amador.

O entrosamento entre as artes cervejeira e gastronômica produz resultados interessantes também, para ver, sentir e degustar. Um dos pratos da casa, que já virou a marca do Solar, é o sanduíche de lombo de porco cozido no chope. A mostarda servida para acompanhar pães e salsichas, também é feita na casa, obviamente com cerveja também, com variações de picância.

Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art

Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art

Para concluir este artigo com consistência, segue uma foto de um pão, feito com malte cervejeiro. Para imaginar a época, ainda no período Neolítico, em que a cerveja era feita a partir de pães, ou algo parecido, para fazer algo parecido com o que conhecemos como cerveja hoje.

ONDE FICA

Rua Riachuelo, 525, Porto Alegre, Rio Grande do Sul

Amazon Beer: Aromas da Amazônia

De Belém do Pará, cervejaria busca conquistar o mundo e se desprender da imagem de exotismo

A microcervejaria amazon beer, de belém (PArá), é especializada em criar cervejas com ingredientes exóticos da região (FOTO: Juliana spinola/especial para a beer art)

A microcervejaria amazon beer, de belém (PArá), é especializada em criar cervejas com ingredientes exóticos da região (FOTO: Juliana spinola/especial para a beer art)

Texto: Katy Sherriff

Fotos: Juliana Spinola

Beer Art 14 - jan/15

Você tem que chegar a tempo às sextas-feiras. Caso contrário, será difícil conseguir uma mesa no terraço da cervejaria Amazon Beer em Belém, Pará. Localizado na Estação das Docas, o antigo cais do porto da cidade foi transformado em um complexo cultural em 2000. A Amazon Beer é um dos bares mais visitados das docas, e não só por causa da vista deslumbrante sobre a Baía de Guajará. As cervejas servidas no terraço são tão saborosas como os seus nomes exóticos.

A microcervejaria Amazon Beer é especializada na criação de cervejas com ingredientes exóticos da região amazônica do Brasil, como o açaí e a priprioca. Fundada em 2000 por Arlindo Guimarães, é a única cervejaria artesanal do Pará e vem colecionando prêmios no país e fora dele.

Caio exalta a visão empreendedora de seu pai (Foto: Juliana Spinola/Especial para a Beer Art)

Caio exalta a visão empreendedora de seu pai (Foto: Juliana Spinola/Especial para a Beer Art)

"Quando meu pai começou esta cervejaria, não havia muito conhecimento no Brasil sobre microcervejarias", diz Caio Guimarães, hoje sócio do fundador. "Havia apenas quatro ou cinco outros fabricantes de cervejas artesanais. Ele leu um artigo sobre o crescimento das microcervejarias nos Estados Unidos e decidiu que este seria um bom investimento."

Guimarães estava certo. Hoje em dia o Brasil conta com mais de 200 microcervejarias.

O jovem empreendedor mostra a pequena fábrica ao lado do bar. "Aqui, nós só produzimos para o consumo no bar, que é cerca de 30 mil litros por mês, o que faz de nós provavelmente o maior 'Brew Pub' do Brasil. Temos também uma outra fábrica na periferia da cidade, onde produzimos para vender aos nossos clientes em todo o Brasil." A empresa tem um crescimento de cerca de 20% ao ano. Hoje em dia, produz cerca de 100 mil litros por mês.

Outras pequenas cervejarias são vistas como parceiras, não como concorrência. "O mercado brasileiro de cerveja ainda é dominado pelas grandes cervejarias. Os brasileiros ainda não estão acostumados com a cerveja de alta qualidade, por isso temos de educá-los. Com outras cervejarias tentamos abrir os olhos dos brasileiros. O mercado de cervejas de qualidade no Brasil está crescendo."

o bar da amazon beer é um dos mais concorridos da Estação das Docas (FOTO: JULIANA SPINOLA/ESPECIAL PARA A BEER ART)

o bar da amazon beer é um dos mais concorridos da Estação das Docas (FOTO: JULIANA SPINOLA/ESPECIAL PARA A BEER ART)

Direto da fonte da amazon beer, em belém (FOTO: JULIANA SPINOLA/ESPECIAL PARA A BEER ART)

Direto da fonte da amazon beer, em belém (FOTO: JULIANA SPINOLA/ESPECIAL PARA A BEER ART)

Várias das cervejas já ganharam prêmios. Como a leve Bacuri, ouro no Festival Brasileiro da Cerveja, em Blumenau (SC), em 2013. Ou a cerveja Açaí Stout: uma cerveja escura com a fruta mais típica da região de Belém, com sabores de caramelo e café. Na edição de 2014 do Festival Brasileiro, foi eleita a Melhor Cerveja do Brasil. No mesmo ano, a Forest Pilsen ganhou medalha de ouro na competição inglesa 'Beer Challenge International'.

As cervejas da Amazon Beer são surpresas exóticas, também para estrangeiros. Desde março de 2014, a Forest Pilsen e a Forest Bacuri Fruit são produzidas e colocadas à venda no Reino Unido. "Começamos com essas duas cervejas no Reino Unido pois elas têm uma menor percentagem de álcool. Por isso são menos tributadas no Reino Unido", explica Caio. A cerveja é vendida por metade do preço no Reino Unido em relação ao Brasil, como os impostos brasileiros são muito mais elevados. Portanto, não é uma surpresa que a empresa queira expandir seu mercado externo. Desde o Reino Unido, a Amazon Beer já exporta para outros países europeus, como França e Alemanha.

a loja da cervejaria (FOTO: JULIANA SPINOLA/ESPECIAL PARA A BEER ART)

a loja da cervejaria (FOTO: JULIANA SPINOLA/ESPECIAL PARA A BEER ART)

"A nossa cerveja é exótica. Mas nós não queremos ser só a estranha, uma cerveja que as pessoas só tentam uma vez. Nós realmente queremos ser uma cerveja que é apreciada no dia a dia em todos os lugares ao redor do mundo." A próxima parada será os Estados Unidos. "Já estamos no processo para registrar nosso produto e já encontramos um distribuidor local." Nos EUA, cinco tipos de Amazon Beer serão introduzidos o mais rapidamente possível.

Para o mercado brasileiro, o início de 2015 trará novas surpresas. "Estamos estudando dois novos tipos de cervejas. Uma já está quase finalizada ", diz Caio. Ele sorri quando perguntado o que estará nessas novas cervejas. "Isso é um segredo, mas você pode ter certeza que vão ser ingredientes da nossa Floresta Amazônica".

Cervejaria Colorado, tradição desde sempre

Por que a Colorado, com sua criatividade, é um dos pilares do renascimento da cerveja artesanal brasileira

Com seus ingredientes típicos nacionais, a Colorado é um embrião do que um dia será chamado de "escola cervejeira brasileira" (Foto: Rogério Volgarine/@cervejaecomida)

Com seus ingredientes típicos nacionais, a Colorado é um embrião do que um dia será chamado de "escola cervejeira brasileira" (Foto: Rogério Volgarine/@cervejaecomida)

Texto: Fabricio Santos – FullPintBR

Fotos: Rogério Volgarine @cervejaecomida

Beer Art 13 - dez/14

Ribeirão Preto − Próxima de completar 20 anos, a Cervejaria Colorado (que por pouco não foi chamada de Cervejaria Califórnia) tem este nome pelo fato de o Estado Norte-Americano do Colorado ter boas cervejas e excelente água − aliás, a cervejaria foi fundada em Ribeirão Preto por conta da fama da água e de a cidade ser culturalmente cervejeira − está novamente mudando de planta. Depois de anos e anos, o pulo é enorme, para uma planta de 4.000m² que certamente colocará a cervejaria num outro patamar.

Appia, com a ousadia do mel de laranjeira como ingrediente (Foto: Rogério Volgarine/@cervejaecomida)

Appia, com a ousadia do mel de laranjeira como ingrediente (Foto: Rogério Volgarine/@cervejaecomida)

A Colorado certamente deu início à criação da “escola cervejeira brasileira” com seus ingredientes típicos nacionais. Lembro bem que, lá pelos idos de 1995/1996 no então Brewpub na Avenida Independência a coqueluche era beber a cerveja “forte e para poucos” com rapadura. Ou ainda a inusitada cerveja com mel que deixava os incrédulos de nariz torcido. Elas estão aí até hoje: Indica (o maior sucesso da cervejaria e uma das cervejas mais premiadas do Brasil) e a Appia (a cerveja mais injustiçada de todas, que nem cerveja pode ser considerada por conta do mel de laranjeira que é de origem animal e nossa legislação engessada proíbe).

O primeiro grande marco da Colorado veio há uns 6 ou 7 anos atrás com o lançamento da Ithaca (que originalmente era para chamar-se Vintage, mas mais uma vez as burras barreiras da legislação proibiram este nome). Trata-se de uma Imperial Stout de 10,5% ABV que não para de ganhar prêmios desde então. Tem na sua composição a boa rapadura brasileira. Chegou até a usar uma outra roupagem, Guanabara, para o mercado exterior, mas sempre manteve a mesma essência. Pra quem não sabe, esta cerveja foi feita originalmente com o hoje mestre-cervejeiro da Invicta, Rodrigo Silveira, que me contou uma vez que a Ithaca “era desenvolvida e feita somente de madrugada, para que sua receita e feitio fossem mantidos guardados a sete chaves”.

A cozinha de cobre continua lá, para produções e, claro, para embelezar o local. Quem não tem uma foto na frente daquela cozinha? Quem não tem uma foto com Laércio Shiya, um “patrimônio” da Colorado e certamente um dos cervejeiros mais respeitados no Brasil.

Marcelo Carneiro, o fundador da Colorado (Foto: Divulgação)

Marcelo Carneiro, o fundador da Colorado (Foto: Divulgação)

Marcelo conta que sonhava em ficar rico com a cerveja, “mas não fiquei, quase desisti há uns anos atrás, mas a paixão pela cerveja e as amizades que fiz não me deixam mais ficar longe da Colorado”.

E não deixa mesmo. A Cervejaria chegou até a ter presidente e conselho, que acabou extinto e fez com que o Marcelo voltasse ao comando total de lá. A paixão dele é tão grande que recentemente publiquei um vídeo revelando quem estava por trás da fantasia de urso no Ipa Day: adivinha? E estava uns 40 graus fora daquela roupa, imagina dentro... Eu tenho um grande apreço pela Colorado, escrever este texto me traz somente boas lembranças. Afinal esta cervejaria faz parte do meu início nas puro maltes da vida e eu só fui me tocar muito tempo depois que participei do começo da cerveja artesanal em Ribeirão Preto. Hoje os planos de voo do urso são ousados: lançaram no fim de 2013 a cerveja do Titãs (uma Brown Ale com laranja); fizeram uma colaborativa com a Antares − o gente boníssima Leo Ferrari (dono da Antares) trouxe pessoalmente o lúpulo argentino usado num dry hopping de Vixnu −; outra colaborativa com o pessoal da Tupiniquim de Porto Alegre-RS e com o mestre-cervejeiro da Nøgne Ø e vem aí mais uma colaborativa com a Saint Feuillien. Estas duas últimas, aliás, são de um estilo inédito na Colorado, Saison.

Não é de hoje que a maioria dos experts em cerveja brasileiros consideram a Colorado como um dos pilares cervejeiros nacionais e, quando e se um dia existir uma “escola brasileira” os louros devem ser colocados primeiramente na cabeça de Marcelo, que contra leis alemãs e brasileiras (sem ser um fora da lei, é claro) galga um degrau por dia em rota de colisão iminente e constante com o sucesso. Como já disse pessoalmente pra ele: não é fácil ser dono da maior microcervejaria brasileira.

Clique na foto para ver mais imagens da galeria (Crédito: Rogério Volgarine/@cervejaecomida)

NOMES CURIOSOS

  • Por pouco não foi escolhido como nome "Cervejaria Califórnia", outro Estado norte-americano
  • A Ithaca, um dos primeiros sucessos da Colorado, deveria se chamar Vintage, mas a burocracia impediu
  • Para o mercado exterior, a Ithaca tem outro nome, Guanabara

Endereço: Rua Minas, 394, Campos Elíseos − Ribeirão Preto

Site: www.cervejariacolorado.com.br

Wäls, ouro de Minas

Conheça a trajetória de 15 anos da premiada Wäls, prestes a se instalar nos EUA com um nome em homenagem à sua cidade: Belô

Cervejaria de Belo Horizonte é uma das principais referências da fervilhante cena cervejeira de Minas Gerais (Foto: Priscilla Colares)

Cervejaria de Belo Horizonte é uma das principais referências da fervilhante cena cervejeira de Minas Gerais (Foto: Priscilla Colares)

José Felipe Carneiro, atrás de uma das atrações da cervejaria, a Wals Petroleum (Foto: Priscilla Colares)

José Felipe Carneiro, atrás de uma das atrações da cervejaria, a Wals Petroleum (Foto: Priscilla Colares)

Priscilla Colares

Beer Art 12 - nov/14

Belo Horizonte - Minas Gerais vê sua cena cervejeira fervilhar. Em todo o Estado, 32 microcervejarias produzem uma grande diversidade de estilos. Deste total, três estão instaladas na Região Metropolitana de Belo Horizonte, palco de uma das mais famosas microcervejarias do país: a Wäls, que neste mês de novembro completa 15 anos de existência.

Motivos para a fama não lhe faltam: é dona de 32 rótulos já lançados, 5 deles destinados exclusivamente à exportação, além de 24 medalhas no currículo, duas delas conquistadas em uma das mais importantes competições do mundo, a World Beer Cup.

Façanha na Copa nos Estados Unidos: ouro inédito para o Brasil, com a Dubbel, e prata com a Quadruppel (Foto: Priscilla Colares)

Façanha na Copa nos Estados Unidos: ouro inédito para o Brasil, com a Dubbel, e prata com a Quadruppel (Foto: Priscilla Colares)

O concurso, realizado em abril na cidade de Denver, Colorado, contou com 1.403 cervejarias de 58 países e 4.754 cervejas julgadas. A cervejaria conquistou ouro, medalha nunca antes conseguida pelo Brasil, com a Wäls Dubbel (atrás da Gulpener Bierbrouwerij, da Holanda, e da Anderson Valley, dos Estados Unidos) e prata com a Wäls Quadruppel. Antes das tão comentadas medalhas, a cervejaria já ostentava a posição de microcervejaria mais premiada de Minas Gerais e uma das mais premiadas do Brasil.

Cervejaria nasceu com um propósito mais modesto e se reinventou (Foto: Priscilla Colares)

Cervejaria nasceu com um propósito mais modesto e se reinventou (Foto: Priscilla Colares)

A ideia de abrir uma cervejaria nasceu em 1999, para abastecer com a própria cerveja a rede de fast food Bang Bang Burguer, da família Carneiro. Incialmente a produção foi de apenas 3 estilos: Pilseners, Pale Ales e Stouts. Como os dois últimos estilos não caíram no gosto do consumidor mineiro, a cervejaria ficou bons anos produzindo somente Pilseners. No ano de 2007, começaram a investir em estilos mais complexos, e a primeira cerveja engarrafada foi a Wäls Dubbel, à época vendida em garrafas de 750ml.

O nome Wäls não tem nenhum significado específico mas é hoje conhecido pelos orgulhosos vizinhos do bairro São Francisco, na região turística da Pampulha (onde a cervejaria está sediada), como “A melhor do Mundo”.

Miguel, Pedro e José Felipe (Foto: Priscilla Colares)

Miguel, Pedro e José Felipe (Foto: Priscilla Colares)

Criado no ambiente da cervejaria, José Felipe Carneiro, com formação em Marketing e Relações Públicas, assumiu a produção em 2009, ano em que também se formou mestre cervejeiro no Senai de Vassouras. E foi de conversas com seu professor do curso, Pedro Paulo Moretzsohn, que veio a ideia de colocar chips de carvalho embebidos em cachaça na receita da premiada Wäls Quadruppel (bronze no Concurso Brasileiro de Cerveja 2013, em Blumenau (SC), ouro no Mondial de la Bière 2013 e prata na World Beer Cup 2014). Seu irmão Thiago também começou a trabalhar na cervejaria desde muito cedo e hoje assume a área administrativa. A cervejaria que tinha apenas dois funcionários hoje já conta com mais de 40.

No aconchego do Tasting Room

Em dezembro de 2013, foi inaugurado o Tasting Room, um conceito norte-americano e europeu de bar na própria fábrica. O espaço, aberto somente aos sábados, comporta 200 pessoas sentadas mas, se chegar muito tarde, dificilmente você encontrará uma mesa disponível. Mesmo longe da área central da cidade, está sempre cheio de novos e assíduos consumidores, como esta que vos escreve.

Logo na entrada o consumidor é encorajado a trocar seus reais pelo dinheiro próprio da cervejaria: “Lúpulo Wäls” e se maravilhar com um ambiente decorado com presteza, onde todos os detalhes foram minimamente pensados. Pinturas alusivas aos insumos da cerveja, quadros da marca, um piano Steinway & Sons que frequentemente alegra a atmosfera, além de mesas que lembram cúpulas de igrejas mineiras do estilo barroco, completam a atmosfera aconchegante.

Galeria de fotos: clique numa imagem para ver a seguinte

Já na área externa olhos cuidadosos podem encontrar detalhes na ferragem que formam flores de lúpulos e madeira de demolição no balcão. O melhor, claro, é a cerveja fresquinha direto da fábrica. São 14 chopeiras com vista para um lindo jardim arborizado, além de refrigerantes também produzidos localmente. A parte interna conta ainda com uma loja de souvenires onde se pode encontrar, além de cervejas, copos, camisetas, revistas, bonés e até quadros da marca. E, para aqueles que estão longe da capital mineira, a Wäls disponibiliza todos esses produtos por meio da loja online da marca.

O passeio pelo “laboratório"

Aos sábados, é possível fazer um tour pela fábrica (Foto: Priscilla Colares)

Aos sábados, é possível fazer um tour pela fábrica (Foto: Priscilla Colares)

A fábrica oferece tours, também aos sábados, com duração de meia hora. O espectador é convidado a, além de conhecer o processo produtivo das cervejas, provar malte de cevada, apreciar os aromas do lúpulo e, quando disponível, experimentar cervejas diretamente do tanque. O passeio termina na cave de um dos rótulos mais raros da cervejaria: Wäls Brut (são produzidas apenas 5.000 garradas ao ano), uma Bière Brut maturada em ambiente climatizado por até 12 meses que nasceu de uma aposta entre os irmãos José Felipe e Thiago enquanto degustavam a cerveja belga Deus, também elaborada a partir do método Champenoise.

Wals Brut terá uma edição especial (Foto: Priscilla Colares)

Wals Brut terá uma edição especial (Foto: Priscilla Colares)

E, como a Wäls é sinônimo de novidade, não se surpreenda em desejar algo que ainda nem está pronto. A cervejaria pretende lançar até 2016 uma edição especial e numerada de Wäls Brut, envelhecida desde 2012 sob um processo inovador. “Será a primeira cerveja do planeta Terra a ser produzida pelo que a gente chama no mundo do Champagne de método Millésime (são produtos da longa maturação e de única safra)", conta José Felipe.

Também é possível encontrar durante o passeio pela fábrica e Tasting Room barricas de carvalho francês, importadas da Escócia, usadas para testes de novas receitas. Frequentemente os visitantes podem provar algum dos “experimentos malucos” (Imperial Bretta Lager, Petroleum Peanut…) disponíveis apenas no Tasting Room e que costumam durar apenas algumas horas.

Em 2014, a cervejaria lançou 11 novos rótulos, e alguns deles receitas colaborativas com outras microcervejarias brasileiras ou exclusivas para clubes de cerveja. A receita colaborativa mais recente, Victorious Dubbel, foi parceria com grandes nomes da cena cervejeira internacional: Pete Slouberg, Sean Paxton e Fal Allen, mestre cervejeiro da americana Anderson Valley − terceiro lugar no World Beer Cup na categoria Dubbel. A receita, com ameixas, canela, gengibre e noz moscada, é maturada em favas de baunilha bourbon.

Outro recente lançamento foi a Hot Petroleum, a famosa e premiada Imperial Stout na verão apimentada. A receita tem adição de um blend de pimentas com destaque para as mexicanas Chile Morita, Chile Entero e Habaneiro, uma das mais ardidas do mundo. A pimenta não aparece muito no aroma, que continua típico da Petroleum, mas o retrogosto entrega o quão Hot essa versão é. Após alguns goles e certa dormência nos lábios, a sensação de ardência, para os pouco acostumados, é abundante! “Essa Petroleum é só para os fortes”, brinca José Felipe no lançamento.

A cervejaria também relançou a famosa Saison “42”, uma cerveja em parceria com a equipe do Google da América Latina para homenagear a série de livros de Douglas Adams intitulada O guia do Mochileiro das Galáxias. No livro um robô com inteligência superior é construído para responder a qualquer tipo de dúvida e, quando questionado sobre “Qual o significado da vida, do universo e tudo mais”, o robô retorna com a resposta: 42! Coloque a pergunta no seu site de busca e terá explicações ainda mais malucas! A cerveja, que leva na receita amêndoas, abacaxi, limão, café, leveduras de Champagne e ainda double dry hop de lúpulo Saaz, é muito refrescante, saborosa e aromática.

Belô chega ao Exterior

Este tem sido um ano intenso para a Wäls, e a família se prepara para inaugurar até o fim do ano uma cervejaria em San Diego, na Califórnia. Em terras norte-americanas, vai se chamar Belô, em homenagem à capital mineira. Como teste de mercado, a cervejaria exportou no final de abril o primeiro lote dos rótulos Belô Petroleum, Belô São Francisco e Belô Ipê, distribuídos no mercado norte-americano pela importadora Artisanal Imports.

 

A cervejaria recentemente exportou para o Canadá um grande lote de cervejas para o “The Craft Beer Advent Calendar”. O projeto dos importadores canadenses consiste na venda de uma caixa com 24 cervejas de países diferentes, feitas exclusivamente para o evento, com tema que remeta a festividades natalinas. A Wäls será a representante brasileira, com a cerveja Tropical Christmas Saison, elaborada com uvas passas brancas importadas da África do Sul, figos, semente de coentro e casca de laranja.

Mas não acaba por aí, há ainda um projeto, já em desenvolvimento, para abertura de uma planta industrial com maior capacidade produtiva em Araxá, em Minas Gerais. O projeto arquitetônico será assinado pelo renomado Gustavo Penna. Este ano a cidade já foi homenageada pela cervejaria com o rótulo Wäls Niobium, uma double IPA com 4 diferentes lúpulos na receita (Polaris, Cascade, Galaxy e Saaz). A cidade com a maior jazida do mineral nióbio no mundo é também cidade natal do patriarca da família Miguel Carneiro. O rótulo vem estampado com a versão da cervejaria da deusa grega Níobe e a massa atômica do mineral (92,9) é apresentada em formato de unidades de amargor na cerveja: 93 IBUs.

Novo Brasil Cervejeiro

A cervejaria que cada hora nos surpreende com uma novidade investe cada vez mais na qualidade de seus produtos e em sustentabilidade. Dispõe de um laboratório próprio para análises microbiológicas e sistema de tratamento de efluentes.

Acreditar, ousar e criar são conceitos que permeiam as atitudes e produtos da Wäls, que busca sempre contribuir com a cultura cervejeira ampliando o entendimento sobre o que consideramos ser a bebida mais apreciada em nosso país além de colaborar para levar a imagem da cena cervejeira artesanal brasileira para o mundo mostrando a todos que aqui fazemos cervejas pra lá de aprazíveis.

Sempre empreendendo, criando novos rótulos e inovando em conceitos, a cervejaria Wäls também é sinônimo de simpatia. A calorosa “família Wäls” e sua equipe recebem todos de braços abertos e prometem continuar nos encantando cada vez mais.

Em resumo, o sucesso desta microcervejaria é esta combinação de carinho, cuidado, humildade e muita cerveja “boa de mais da conta, sô”!

  • Endereço: Rua Padre Leopoldo Mertens, 1.460, bairro São Francisco - Belo Horizonte (MG)
  • Horário de funcionamento do Tasting Room: sábados das 11h às 17h.
  • Loja virtual:www.walswebstore.com.br

Invicta, de 1.000 amargores às 6 da tarde

Invicta é a mais jovem, porém mais surpreendente, representante de um município de rica tradição cervejeira, Ribeirão Preto

A 6 o'clock e a Sexta-Feira foram produzidas na Invicta com Shane Welch, da Sixpoint (Foto: Rogério Volgarine, @cervejaecomida/Especial para a Beer Art)  

A 6 o'clock e a Sexta-Feira foram produzidas na Invicta com Shane Welch, da Sixpoint (Foto: Rogério Volgarine, @cervejaecomida/Especial para a Beer Art)  

Texto: Fabricio Santos - FullPintBR
Fotos: Rogério Volgarine @cervejaecomida
Beer Art 11 - out/14

Ribeirão Preto (SP) - Levando em consideração a forte tradição cervejeira de Ribeirão Preto (SP), a Cervejaria Invicta ainda era pra ser um embrião. E deixemos no campo do “era” mesmo, pois a história marcante e precoce dos primeiros três anos recém completados traz à tona um carrossel em espiral explosiva: várias e várias medalhas, mais de 10 rótulos em linha constante e ainda um bar em frente, que deixa você provar isto tudo ali, fresquinho, recém tirado do tanque.

A experiência nos ensina que a melhor cerveja é aquela de que você vê a chaminé da fábrica. O que dizer de um bar em que você vê a cozinha que fez a cerveja que você está bebendo? Sempre com pelo menos três estilos diferentes nas torneiras, você ainda encontra ali toda a linha da cervejaria e muitas outras cervejas nacionais e importadas. Pão de malte no cardápio, joelho de porco defumado na própria cozinha do bar... Mimos difíceis de encontrar em uma cervejaria!

Voltando à história da Invicta, que na verdade começou muitos anos antes de existir: seu proprietário e mestre cervejeiro Rodrigo Silveira começou no ofício bem lá atrás, como prático na hoje “concorrente” (entre aspas, por se tratarem na verdade de grandes parceiros e amigos) Cervejaria Colorado – um dos ícones da cerveja artesanal brasileira – no começo dos anos 2000. De lá partiu para respirar, já como mestre cervejeiro, ares maiores: integrou a equipe da Schincariol (hoje Brasil Kirin) e lá “pegou o jeito” de grandes produções e grandes resultados. Já com a bagagem pronta pra voltar pra Ribeirão Preto, Rodrigo ainda passou um tempo trabalhando na Cervejaria Dama, de Piracicaba/SP, e logo depois fundou com seu tio a Invicta.

Timidamente, mas com grandes investimentos, começava a cervejaria, com dois pares de tanques (hoje são mais de 10) e logo de cara produzindo uma Imperial IPA, entre as melhores nacionais até hoje.

Passou o tempo, e vierem então lançamentos em garrafas, como a IBA (India Black Ale) feita e forma surpreendente, quando a cervejaria previamente enviou kits para blogueiros e experts do setor e fez o lançamento com pessoas abrindo pela primeira vez garrafas desde Fortaleza até Porto Alegre.

Aliás, a Invicta é bem conhecida não só pelas excelentes cervejas, mas também pelas grandes sacadas: Rodrigo teve a sagacidade de lançar a 1000 IBU de uma forma incrível, que chamou a atenção pra valer, pra uma cerveja que merece: difícil encontrar um amante de lupuladas que não tenha este rótulo no seu TOP3.

Produções ciganas já foram (e ainda são) feitas nas dependências da Invicta: 2 Cabeças, Júpiter e, mais recentemente, rótulos como Cafuza e Green Dream das paulistanas STP e Noturna engordam a lista.

Antes disso, vale registrar que é a única cervejaria que produz cervejas pra uma banda de rock, a safada e deliciosa Velhas Virgens, de maneira que a banda participa das criações – na verdade as receitas são do cervejeiro caseiro e baixista da banda Tuca Paiva – e desenvolve a cerveja para a banda e não apenas troca o rótulo. As 3 já produzidas até hoje (English IPA, Wit com casca de limão cravo e Brown Ale com baunilha) são exclusivas das Velhas e retratam bem o que a banda quer para o seu público: trazer pessoas que só bebem main streams para o mundo das especiais.

Se o leitor ainda me permite: todo ano faço uma cerveja comemorativa de aniversário do Blog. Estou com a do quinto ano já em desenvolvimento na Invicta. As 3 últimas, aliás, foram feitas lá também, incluindo a última que levou café Jacu na receita. Um sucesso!

Mais recentemente, Rodrigo foi convidado a ser vice-presidente na América Latina da Global Association of Craft Beer Brewers (Associação Global dos Cervejeiros produtores de Cerveja Artesanal). Além de ser uma enorme honra, rendeu-lhe bons frutos: “Até hoje não consigo acreditar que tive em minha cozinha um dos maiores e melhores cervejeiros do mundo, produzindo comigo a sexta-feira e 6 o’clock”, comenta Rodrigo, citando Shane Welch, que brassou em Ribeirão Preto as duas cervejas pela primeira vez. A 6 o’clock inclusive entrou para a linha da cervejaria e permanece como uma das mais cotadas, ao lado da 1000 IBU.

Bavarian IPA feita com a flor Damiana contou com o apoio da sommelier Amanda Reitenbach (Foto: Rogério Volgarine, @cervejaecomida/Especial para a Beer Art) 

Bavarian IPA feita com a flor Damiana contou com o apoio da sommelier Amanda Reitenbach (Foto: Rogério Volgarine, @cervejaecomida/Especial para a Beer Art) 

A Invicta lançou agora comemorando seus 3 anos a cerveja batizada pela própria cervejaria como uma Bavarian IPA − somente lúpulos germânicos entram na receita. A cerveja ainda tem uma peculiaridade: foi feita com uma flor conhecida como Damiana, que segundo as crenças indígenas na América Central confere vigor sexual! A cerveja contou com o apoio da sommelier Amanda Reitenbach para dar um toque feminino à receita.

A Marzen vencedora do 5º Concurso da Acerva Paulista (Foto: Reprodução)

A Marzen vencedora do 5º Concurso da Acerva Paulista (Foto: Reprodução)

Mais recentemente, a Invicta produziu a Oktoberfest Marzen Bier vencedora do 5º Concurso da Acerva Paulista, a Invicta Oktober.

No plano futuro da cervejaria está agora reinventar a receita da Imperial Stout, passando de 9 para 10% ABV e firmando-a como uma das também melhores Imperiais Stouts no Brasil. O crescimento por lá não para. O prédio está apertado já. Grandes novidades virão. Talvez por isto a tag usada pela cervejaria seja sempre #invictos. Talvez aí esteja o segredo do nome: pessoas que sabem o que fazem, com bons equipamentos, grande reconhecimento e uma carga de experiência incrível. Esta é a mais jovem, porém mais surpreendente cervejaria de Ribeirão Preto.

Já vi pessoas cometendo a infelicidade em afirmar que o cervejeiro não é parte essencial de uma cervejaria. Ledo engano. Ao meu ver, inclusive, as mãos do cervejeiro é que forma o tão misterioso “terroir” de uma cerveja/cervejaria. Quando o dono é o cervejeiro, a facilidade de manter a identidade sensorial e da qualidade sempre é mais latente.

Não é em vão o slogan: “Nosso segredo é todo seu”. Aproveite!

Veja galeria com mais fotos da Invicta, por Rogério Volgarine @cervejaecomida (clique na imagem para ver a seguinte)

Endereço da Invicta: Av. do Café, 1365 - Vila Amelia, Ribeirão Preto (SP)

 

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Rodrigo Silveira, que começou como prático da Colorado e passou por outras cervejarias, imprime o seu estilo em lançamentos com o da 1000 IBU (Foto: Rogério Volgarine, @cervejaecomida/Especial para a Beer Art) 

Rodrigo Silveira, que começou como prático da Colorado e passou por outras cervejarias, imprime o seu estilo em lançamentos com o da 1000 IBU (Foto: Rogério Volgarine, @cervejaecomida/Especial para a Beer Art) 

 

Bamberg, paulista com sotaque alemão

Estabelecida em Votorantim, a Bamberg é a mais premiada seguidora da tradição germânica no Brasil

Cervejaria nasceu em 2005, como fruto da inspiração em uma viagem à Alemanha e da persistência ao enfrentar os obstáculos da burocracia (Foto: Raphael Rodrigues/Beer Art)

Cervejaria nasceu em 2005, como fruto da inspiração em uma viagem à Alemanha e da persistência ao enfrentar os obstáculos da burocracia (Foto: Raphael Rodrigues/Beer Art)

Raphael Rodrigues

Beer Art 10 - set/14

Não é fácil montar uma cervejaria no Brasil, e era muito menos ainda em 2005, ano em que a Bamberg começou. Inúmeros obstáculos, desde a burocracia para arrumar os papéis, depois o MAPA, a liberação da Junta Comercial e a distribuição. De todo o processo, lembra Alexandre Bazzo, o mais fácil é fazer a cerveja. A ideia nasceu em uma viagem para a Alemanha. A cidade de Bamberg descortinou para Alexandre e os irmãos uma rica tradição cervejeira. Estabelecida em Votorantim (SP), perto de Sorocaba, a Bamberg começou a produzir em dezembro de 2005. Seguidora da tradição alemã, ela se transformou em uma cervejaria conhecida em todo o território nacional e acumulou prêmios nacionais e internacionais. E Alexandre se tornou uma das vozes mais influentes do renascimento da cerveja artesanal no Brasil. Sempre se posicionando nas redes sociais e levantando a bandeira da cultura alemã, é adorado por uns e questionado por outros. A tradição alemã em cervejas parece incomodar parte do público, mas o fato é que justamente isso mostra a grandiosidade da escola alemã.

Bem-vindo à Bamberg, em Votorantim (Raphael Rodrigues/Beer Art)

Bem-vindo à Bamberg, em Votorantim (Raphael Rodrigues/Beer Art)

O sucesso pode ser medido na festa anual de aniversário. Ingressos esgotados rapidamente, amigos e consumidores de todo o Brasil celebram a data com Alexandre e sua esposa, Janaina Albino. Falando em conquistas, é impossível falar da cervejaria sem mencionar as mais de 80 medalhas acumuladas. A primeira conquista nacional foi em 2008, com a Pilsen escolhida a melhor no estilo pelo jornal Estado de S.Paulo. Não demorou para chegar o primeiro prêmio internacional, e foi na Alemanha: prata para a Rauchbier no European Beer Star 2009, na categoria Smoked Beer. Cinco anos depois, os rótulos mais premiados são: Rauchbier, Schwarzbier, Altbier e München. Elas já subiram em pódios cobiçados como Mondial de la Bière, Australian Beer Awards, World Beer Awards, South Beer Cup e Copa Cervezas de América.

Medalhas na South Beer Cup são apenas uma mostra de um acervo repleto de premiações (Foto: Raphael Rodrigues/Beer Art)

Medalhas na South Beer Cup são apenas uma mostra de um acervo repleto de premiações (Foto: Raphael Rodrigues/Beer Art)

No ranking organizado pela revista Beer Art, que considera 12 concursos de prestígio, adivinha quem mais aparece entre as 10 primeiras? Bamberg!

  • 1º - Rauchbier
  • 3º - Schwarzbier
  • 5º - Altbier

Para ver o ranking completo, clique aqui.

Tudo isso já seria o suficiente para contar a história de uma cervejaria bem-sucedida, mas tem mais. Ela também ficou muito conhecida no Brasil por causa das cervejas de banda, a primeira foi a Sepultura Weizen, depois veio a Camila Camila, para a banda Nenhum de Nós, a Raimundos Helles e a Calibre, em comemoração aos 30 anos do Paralamas do Sucesso.

A Camila Camila é uma das mostras da afinidade roqueira da cervejaria (Foto: Raphael Rodrigues/Beer Art)

A Camila Camila é uma das mostras da afinidade roqueira da cervejaria (Foto: Raphael Rodrigues/Beer Art)

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Fica complicado menosprezar a cultura alemã de cervejas ou mesmo a Bamberg depois de toda essa história de conquistas que continua a ser escrita de maneira minuciosa e primorosa... Nos tanques, claro. Segundo Bazzo, uma nova sazonal já está maturando e deve ficar pronta na primeira quinzena de setembro, a Weizenbock Dunkel, com 8,2% de teor alcoólico.

Assista ao depoimento que Alexandre Bazzo deu à Beer Art no Festival Brasileiro da Cerveja 2014:

 

 

A Nacional

O bar do polo paulistano de Pinheiros que fabrica a sua própria cerveja

Planejamento é um dos ingredientes da Cervejaria Nacional (Foto: Antonio Rodrigues/Divulgação)

Planejamento é um dos ingredientes da Cervejaria Nacional (Foto: Antonio Rodrigues/Divulgação)

Luís Celso Jr.
Beer Art 9 - ago/14

São Paulo - O bairro de Pinheiros, na Zona Oeste, está rapidamente virando o ponto mais cervejeiro da capital paulista. Entre os estabelecimentos locais, Empório Alto dos Pinheiros − a Meca dos cervejeiros brasileiros −, BrewDog Bar − o único fora da Europa −, Cervejaria Nacional − a primeira fábrica bar da cidade − e, em breve, Delirium Café São Paulo, filial do bar do Rio de Janeiro, primeiro das Américas. Mas, em 26 de maio de 2011, quando a Cervejaria Nacional abriu as portas pela primeira vez, não havia tanto glamour. "Após muito procurar, achamos aqui o lugar ideal para o nosso brewpub", conta Marcus Ribas, um dos sócios.

A Nacional, como é carinhosamente chamada pelos frequentadores mais assíduos, é um bar que fabrica sua própria cerveja. Trata-se de um ambiente híbrido e agradável. Logo ao entrar, o cliente encontra a cervejaria, protegida por uma parede de vidro. Uma pequena "cozinha" com dois blocos e alguns tanques garante a capacidade total de produção de 10 mil litros/mês. Quem controla o processo é o cervejeiro Guilherme Hoffman, que herdou a posição de Alexandre Sigolo, hoje na Cervejaria Burgman, de Sorocaba (SP).

As criações da casa são batizadas com nomes do folclore brasileiro: − Y-îara Pilsen, clara, dourada e de boa espuma, com dulçor e amargor balanceado, como as boas Bohemiam Pilseners Checas − Domina Weiss, de trigo ao melhor estilo alemão, com notas que rementem à banana e cravo − Curupira, boa e intensa Pale Ale, avermelhada, agradável de beber e com lupulagem herbal − Mula, uma American IPA com alto amargor e aromas de lúpulo cítricos marcantes − Sa'si Stout, seca, com bom balanço entre malte e lúpulo, lembrando um bom café expresso.

Sucesso também fazem as sazonais, principalmente entre o público mais especializado, ávido por novidades. O projeto de fazer "rótulos" diferentes de vez em quando se mostrou um dos grandes pontos fortes, dando também vazão à criatividade do cervejeiro. "Fazer as sazonais é divertido. Procuramos ter essas novidades a cada mês ou quinzena, dependendo do período do ano", conta Guilherme.

Mula uma American IPA com alto amargor e aromas de lúpulo cítricos marcantes  (Foto: Antonio Rodrigues/Divulgação)

Mula uma American IPA com alto amargor e aromas de lúpulo cítricos marcantes  (Foto: Antonio Rodrigues/Divulgação)

Não raramente, essas receitas aproveitam a presença de grandes nomes da cerveja em passagem por São Paulo. Eles fazem em parceria com a Cervejaria Nacional receitas ainda mais especiais, como as realizadas com os mestres cervejeiros Martin Zuber, alemão da Paulaner, e Doug Odell, americano da Odell Brewing. O primeiro usou sua experiência para criar uma Ur-Dunkel, receita que remete à versão original da tradicional Munich Dunkel, referência que poucas pessoas no mundo têm. O segundo, uma deliciosa Coffee IPA, clara de amargor elevado e lúpulos cítricos americanos combinados com café brasileiro.

O bar

Subindo o primeiro lance, encontramos o piso do bar. Aí é possível ter uma melhor ideia da proporção da Cervejaria Nacional. É um lugar longo, como um corredor mais largo. De um lado, uma sequência de mesas e do outro um balcão com cadeiras, de frente para uma área onde algumas vezes por semana há bandas para animar a noite − em cima da cervejaria. Não à toa, o programa musical foi batizado de "Som dos Maltes".

Ao lado, mais um lance de escadas dá acesso ao segundo andar, com espaço mais amplo e mesas, além da cozinha ao fundo. "Depois que você abre, a casa não pertence mais a você, e sim ao público. É ele que dá as direções. A ideia no piso superior era mais de um restaurante, para jantar. Hoje virou quase uma pré-balada, com diversos aniversários, gente de pé, animação. É um clima de bar mesmo, o que mostra que o público queria isso, e não o que a gente achava que seria", conta Marcus de sua mesa predileta no bar, embaixo da escada que dá acesso ao piso superior.

Marcus é uma espécie de diretor operacional da Cervejaria Nacional e acompanha o dia a dia da casa. Consultor experiente na área de gastronomia, trabalhou por mais de 25 anos em diversos projetos. "Sou de Mato Grosso e fui morar e Minas Gerais no final da década de 80 para trabalhar no bar de um tio. Comecei lavando louça, fazendo faxina, da base mesmo. Depois vim para São Paulo, me estabeleci e nunca mais saí", conta.

O passado e o futuro

O diretor conta que o nascimento da Cervejaria Nacional como é hoje foi fruto de uma coincidência, de um encontro com os autores originais da ideia, Luis Fernando Fabiani e Eduardo Toledo. O primeiro teve contato com a fabricação caseira de cervejas (homebrewing) nos Estados Unidos na década de 90, quando fazia mestrado em Nova York. Ao voltar para o Brasil, trouxe o equipamento e fazia cerveja para os amigos no apartamento. Um deles era Eduardo, que estimulou a ideia de montar um negócio. Em 2006 os amigos fizeram uma nanocervejaria em Pinheiros. Mas o negócio patinava.

Em 2008, procuraram a consultoria onde Marcus trabalhava, vizinha da fábrica. Ele, por sua vez, já tinha a ideia de montar um negócio próprio e conhecia a arte da cervejaria de uma viagem para Boston, também nos EUA, quando visitou a filha que estudava no Exterior. "Eu estava fora no dia. Uma pessoa que trabalhava comigo me ligou e disse que eu não ia acreditar no que havia acontecido. Que tinha um pessoal com uma cervejaria em Pinheiros e que gostaria dos nossos serviços. Entramos em contato, e a ideia rapidamente evoluiu para uma sociedade. Tínhamos habilidades complementares, eles de cerveja e eu de negócios de gastronomia", conta.

Em meio a isso, a ideia evoluiu para o conceito de brewpub, e a equipe deu início ao trabalho de preparação. Houve muito planejamento antes de abrir as portas, assim como de projeto do local. Definido o ponto, o espaço foi alugado em 2010, 14 meses antes da abertura oficial, só para a preparação.

Hoje, olhando o movimento do seu ponto de observação predileto, Marcus se diz realizado. "A cerveja é a alma do nosso negócio. Tem aqui muito de negócio sim, mas sem alma não valeria a pena. De vez em quando observo as demais mesas discretamente. Vejo que eles estão bebendo a nossa cerveja, que produzimos aqui, o que me dá muito prazer e orgulho. Nós fizemos. Não é incrível isso?", diz.

A Cervejaria Nacional tem em seu público tanto leigos quanto cervejeiros de carteirinha. O segredo, de acordo com ele, é a qualidade dos produtos, tanto da cerveja como alimentação e atendimento. A equipe da Nacional conta hoje com mais de 40 pessoas, além dos 10 sócios − parte deles apenas investidores.

"Queremos de garantir a permanência do negócio, por mais três, cinco, 10, 15 anos. Mas também queremos expandir. Estamos estudando várias ideias, mas ainda não definimos em qual investir", diz Marcus sobre o futuro do negócio. O lançamento da versão engarrafada da Mula é uma dessas experiências. A brassagem é feita na fábrica da Dortmund, em Serra Negra (SP), onde é envasada e pasteurizada. O plano é fazer tudo da mesma forma como a Nacional foi criada: com muito planejamento: "Empreender é lidar com riscos. Temos que tentar ter o máximo de controle possível para evitá-los".

A "cozinha" que costuma ser compartilhada com grandes nomes da cerveja em passagem por São Paulo (Foto: Antonio Rodrigues/Divulgação)

A "cozinha" que costuma ser compartilhada com grandes nomes da cerveja em passagem por São Paulo (Foto: Antonio Rodrigues/Divulgação)

 
O ambiente da Cervejaria Nacional (Foto: Antonio Rodrigues/Divulgação)

O ambiente da Cervejaria Nacional (Foto: Antonio Rodrigues/Divulgação)

Das Bier!

Cervejaria concebida para saciar clientes de pesque-pague se tornou atração principal

O projeto era fazer um brewpub mas a aceitação levou a família Schmitt a ampliar o negócio e instalar fábrica (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

O projeto era fazer um brewpub mas a aceitação levou a família Schmitt a ampliar o negócio e instalar fábrica (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

ALTAIR NOBRE (textos) e
RICARDO JAEGER (fotos) 
Beer Art 8 - jul 2014

Gaspar (SC) - De início, o propósito era saciar a sede dos clientes do pesque-pague. Nas pausas do embate com os peixes, eles comprovaram a qualidade do chope produzido ali, no interior de Gaspar (SC), município de influência alemã no Vale do Itajaí.

Inaugurada em 16 de dezembro de 2006, com festa para a qual foi convidada a população do Belchior Alto, a Das Bier logo superou em relevância as demais atrações daquela propriedade com paisagem rural. Nasceu com a restauração do casarão construído no início do século 20 (1901-1903) por Antônio Bernardo Haendchen, pioneiro desse bairro com cascatas e outros pontos turísticos.

À frente dos negócios no século 21, a Família Schmitt, descendente do patriarca, propôs-se a agregar valor aos empreendimentos, sem abandonar as tradições. Com nome germânico (traduzido, quer dizer "A Cerveja"), a cervejaria recebe investimento constante para melhor servir e receber turistas e clientes.

"O projeto era fazer um brewpub para os clientes do pesque-pague, que existe aqui há 18 anos. Pelo aumento da demanda, a gente foi percebendo que valia a pena investir na cervejaria", explica um dos integrantes da família, Leandro Schmitt, na operação do negócio há quatro anos. A perspectiva da Das Bier impôs uma guinada na trajetória profissional de Leandro, que trabalhava no Paraná e voltou para Santa Catarina a fim de assumir a gerência da cervejaria.

E o que a Das Bier tem de diferente em relação às demais artesanais? O cervejeiro Antônio Soares de Souza, com sotaque pernambucano, responde: "A alma daqui é a água, de poço artesiano, os equipamentos muito bons", diz, para em seguida acrescentar, sorrindo: "e os donos, que deixam a gente trabalhar". Ali é produzida uma variedade de tipos de cerveja, entre eles Pilsen, Weiss, Braunes Ales, Pale Ale e Strong. Aos 7 anos de atividade na Das Bier, Souza acrescenta no currículo 17 de Brahma, 5 de Continental e 1 de Schincariol.

Qual a diferença entre exercer o ofício em uma cervejaria grande e em uma pequena? "Nas pequenas, você consegue ver todo o processo, do esmagamento do malte até a filtração. A vantagem é poder corrigir rapidamente algum problema, assim que constatado, e ter mais controle sobre a qualidade da matéria-prima", explica Souza.

Como tornou costume à época do Festival Brasileiro da Cerveja, da vizinha Blumenau, produz cervejas colaborativas − e criativas. A Beer Art acompanhou a produção de uma dessas, em 14 de março deste ano. Na ocasião, em conjunto com a Bodebrown e com a Morada Cia Etílica, houve a brassagem de uma Kölsch − estilo da região da Colônia (Alemanha) − com 15% de centeio, em lugar do trigo como complemento da cevada. Já disponível no bar da cervejaria e no Kneipe (pub alemão localizado no Shopping Park Blumenau), a Roggen Kölsch é uma mostra de que, mesmo com respeito pelas origens, a Das Bier é aberta a experimentações.

Serviço

  • O que: restaurante e bar da cervejaria Das Bier
  • Quando: de 4ª a 6ª das 17h às 24h, sábado das 15h às 24h e domingo das 11h às 19h
  • Onde: Rua Bonifácio Haendchen, 5.311, Belchior Alto - Gaspar/SC
  • Fone: (47) 3397-8600 Email: contato@dasbier.com.br
A perspectiva da cervejaria impôs uma guinada na trajetória profissional de Leandro (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

A perspectiva da cervejaria impôs uma guinada na trajetória profissional de Leandro (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

 
 
Souza, que trabalhou em cervejarias grandes, vê vantagens de controle de qualidade nas pequenas (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Souza, que trabalhou em cervejarias grandes, vê vantagens de controle de qualidade nas pequenas (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

 
Variedade da produção inclui Pilsen, Weiss, Braunes Ales, Pale Ale e Strong (Ricardo Jaeger/Beer Art)

Variedade da produção inclui Pilsen, Weiss, Braunes Ales, Pale Ale e Strong (Ricardo Jaeger/Beer Art)

 
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Tupiniquim: o segredo da ave

Com alma brasileira e olhar cosmopolita, a Tupiniquim conquista medalhas e respeito

Cervejaria que tem como símbolo a arara foi a sensação da South Beer Cup 2014 (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Cervejaria que tem como símbolo a arara foi a sensação da South Beer Cup 2014 (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Por Altair Nobre (texto)

e Ricardo Jaeger (fotos)

Beer Art 7 - jun 2014

As medalhas ganhas em Belo Horizonte (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

As medalhas ganhas em Belo Horizonte (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Porto Alegre (RS) - Ao desembarcar na South Beer Cup 2014, em Belo Horizonte (MG), Christian Bonotto estava confiante. Apesar de a Tupiniquim ser uma novata nessa competição considerada a "Libertadores da Cerveja", ele tinha segurança na qualidade do produto. Portava a certeza de que conquistaria uma medalha de bronze - ótimo desempenho para uma estreante com menos de um ano de existência. Errou. Voltou para Porto Alegre (RS) com dois ouros, duas pratas, um bronze e o título de Cervejaria do Ano.

Para contar a trajetória até essa façanha, ele recebeu a equipe da Beer Art na primeira quinta-feira de junho, ainda zonzo com a glória de 12 dias antes. Fruto de uma sociedade com mais dois amigos também vindos da informática, André Bettiol e Fernando Jaeger, e dois da área comercial, os irmãos Alex e Márcio Santos, a Tupininquim começou a nascer em 2006, a partir de uma inquietação de Christian. Um trisavô dele teve cervejaria em 1892 onde hoje fica o município de Faxinal do Soturno, no centro do Rio Grande do Sul.

Christian Bonotto (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Christian Bonotto (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

"Se ele conseguia produzir cerveja naquela época, quando era muito mais complicado, a gente tem capacidade de fazer agora", raciocinou. "Fomos atrás." De início, a ideia era apenas adotar um hobby. Mas ficou sério: "A gente enxergou um mercado". Para entrar nele, o primeiro passo foi abrir uma importadora. Em sociedade com André, em 2007, surgiu a Beer Legends.

A empresa teria um papel estratégico para o nascimento da Tupiniquim seis anos depois. Com a importadora, vieram conexões com produtores internacionais, particularmente os "ciganos" em busca de boas cervejarias pelo mundo afora para fazer as suas cervejas, e também com o comércio local. De um lado a parceria com cervejeiros de excelência internacional e, na outra ponta, o acesso a pontos de venda, como os de rede de supermercados, por exemplo. Entre esses dois pontos, um caminho livre para ousar.

Ousar sem perder a identidade. Por isso foi escolhida a arara, uma ave bem brasileira, como símbolo da cervejaria, criada em 2013 com nome sugerido por André, a partir de brain storm. Brasilidade, mas sem bairrismo. A Tupiniquim é cosmopolita.

Além das opções de estilos mais tradicionais, desenvolveu uma linha mais arrojada, com a participação de cervejeiros ciganos.

Cervejas feitas com a parceria de "ciganos" estrangeiros  (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Cervejas feitas com a parceria de "ciganos" estrangeiros  (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Com o dinamarquês Jeppe Jarnit-Bjergsø, da Evil Twin, criou a Extra Fancy, uma India Pale Ale (IPA) medalha de ouro na South Beer Cup, e a Lost in Translation, uma IPA Brett premiada com a prata.

Com Henok Fentie, da sueca Omnipollo, surgiu a Polimango, Double IPA com polenta e lúpulos cítricos na receita, ouro na SBC.

Com Brian Strumke, da norte-americana Stillwater, produziu a Saison de Caju, bronze na SBC.

O que está no tanque

A aliança internacional produziu também outra modalidade de negócio. A Tupiniquim está produzindo uma cerveja da Evil Twin, uma Imperial Stout, prevista para estar pronta no meio de julho. A fábrica própria permite isso. Nos seis primeiros meses da Tupiniquim, era impossível, porque ela ainda não tinha estrutura própria e recorria à Saint Bier, de Forquilhinha (SC). No dia da visita da Beer Art, no tanque ao lado da Imperial Stout da Evil Twin, fermentava uma Imperial Porter, novidade da própria cervejaria da capital gaúcha.

E, afinal, qual é o segredo do voo da Tupiniquim?

Christian resume: "A gente estuda muito o que vai fazer. Aqui não se faz algo só porque está na moda. O desafio, para nós, é fazer um produto que agrade tanto ao leigo quanto ao especialista".

Veja a galeria (Fotos de Ricardo Jaeger/Beer Art)

 

Bodebrown, ebulição criativa

Conheça a história da Bodebrown - novamente Cervejaria do Ano - e as ideias de seu inquieto criador

Samuel Cavalcanti busca ir “além do óbvio” e manter lugar na vanguarda 

Samuel Cavalcanti busca ir “além do óbvio” e manter lugar na vanguarda 

Luís Celso Jr.
Beer Art 6 - mai 2014

Curitiba (PR) - Julho de 2009. Recebo um convite para participar como jornalista de um curso de cerveja artesanal feita na panela. O material falava da primeira cervejaria escola do país estar sendo fundada em Curitiba. O nome? Um pouco esquisito. Era uma tal de Bodebrown.

Foi esse meu primeiro contato com a eleita Cervejaria do Ano bicampeã no Concurso Brasileiro de Cervejas, nas edições do Festival Brasileiro da Cerveja de 2013 e 2014 em Blumenau (SC). Era uma pequena fábrica – brassagem de 150 litros e cerca de três ou quatro tanques de 200 litros – com sala de aula ao lado. Um espaço relativamente desconhecido, principalmente por quem era de fora do grupo cervejeiro de Curitiba.

Hoje a Bodebrown continua micro – apesar da brassagem maior, de 1,5 mil litros, e 26 mil litros em tanques –, mas se tornou uma das referências nacionais. Para isso acontecer foram pouco mais de cinco anos de trabalho, ousadia, uma certa dose de loucura e muita paixão, conta o sócio proprietário, Samuel Cavalcanti.

O reconhecimento veio em visibilidade na imprensa nacional, no meio cervejeiro e muitas premiações. Além das 11 medalhas no concurso nacional de 2013 e das 10 em 2014, a Bodebrown foi a primeira cervejaria brasileira premiada no Mondial de La Bière em Montreal, no Canadá, e totaliza nada menos do que oito medalhas em diversas edições do festival. Além disso, acumula prêmios também no Australian International Beer Awards e em outros festivais.

A inovação se estende à criação de eventos, com o Beer Ranch e o Beer Train

A inovação se estende à criação de eventos, com o Beer Ranch e o Beer Train

Grande parte dessa trajetória foi traçada com base na personalidade do próprio Samuel, considerado por muitos um cientista maluco da cerveja – alcunha que tem certa motivação na aparência desse pernambucano radicado em Curitiba desde os 18 anos, com cabelos arrepiados e meio grisalhos. Formado em Química Industrial em 2000, Samuel conta que a paixão surgiu nas aulas de fermentação ainda na faculdade, onde estudou também o pão e os queijos. Seus olhos brilharam quando ouviu as histórias de monges que produziam cerveja e quis fazer aquilo também.

O primeiro curso na área foi em 2002 e muitos outros se seguiram, como VLB de Berlim e Siebel de Chicago. Entre um e outro, conta o empreendedor, aprendeu muito com livros, diversas viagens pelo mundo e com pessoas do meio cervejeiro que conheceu, na capital paranaense ou fora dela.

E, talvez, seja essa capacidade de juntar pessoas uma das grandes características de Samuel e, por extensão, da Bodebrown. Já no início da cervejaria, vários cervejeiros de destaque em Curitiba estavam de alguma forma em contato com a cervejaria, como amigos ou profissionais. Além disso, a proposta de uma escola de cervejeiros caseiros, loja de insumos e microcervejaria ajudou a criar uma comunidade forte em volta da Bodebrown. “É um tripé perfeito”, diz Cavalcanti. “Cria fãs, promove a cultura cervejeira e cria o renascimento. O resultado se vê na cidade hoje, com muitos homebrewers e microcervejarias. Claro, existiram outros players e nem tudo saiu daqui. Mas não há como negar que a Bodebrown teve um grande papel de destaque na construção dessa cidade cervejeira de destaque nacional hoje”, completa.

Viva La Revolución

Outra característica importante da Bodebrown é ir além do óbvio, procurando estar à frente, na vanguarda, conta Samuel. E isso se reflete nos produtos em inovações. Alguns exemplos são as premiadas Hop Weiss, uma cerveja de trigo lupulada, além da Wee Heavy e Perigosa IPA, as primeiras Strong Scoth Ale e Imperial IPA, respectivamente, registadas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Ou mesmo a tão comentada recentemente Cacau IPA, cerveja clara e com ótimo equilíbrio entre amargor do lúpulo e o cacau, produzida em colaboração com Greg Koch, cofundador e presidente da Stone Brewing, em visita ao Brasil.

“Se fizéssemos a mesma coisa que o pessoal fazia há cinco anos, há uma grande possibilidade nem estarmos mais presentes no cenário cervejeiro do Brasil”, comenta o proprietário da Bodebrown.

É isso, essa inovação, o que brada Samuel sempre que pode com o tema “Viva La Revolución”, que virou corrente no meio cervejeiro em Curitiba – o termo teria surgido de uma garrafa da microcervejaria chilena Capital anos antes e foi adotado por todo o movimento.

 

Sobre os negócios, Samuel diz que não tem a pretensão de ser grande. Diz que é preciso ficar de olho no Business Plan e nos números, mas o essencial mesmo é a paixão pelo que se faz. “Só os números não são suficientes para dar viabilidade esse negócio”, completa. Outra curiosidade é o nome da cervejaria. O Bode vem das origens pernambucanas de Samuel, onde a família criava bodes. Brown vem de James Brown, cuja música Samuel escutava no mesmo dia que recebeu o conselho de sua avó para buscar o nome do empreendimento nas raízes de sua linhagem.

Passeio cervejeiro

Nos eventos, a Bodebrown também inovou. Além de diversas festas que já fez, criou Beer Ranch e o primeiro Beer Train brasileiro, terceiro no mundo. Trata-se de um passeio sobre trilhos pela Serra do Mar paranaense, a maior faixa de Mata Atlântica contínua preservada do país.

Cena do Beer Train

Cena do Beer Train

Tive o prazer de acompanhar os eventos e pisar novamente na cervejaria em fevereiro, anos depois de minha primeira visita. A planta da fábrica hoje está em meio a um processo de reforma. Uma nova “cozinha” foi instalada, além de mais tanques de fermentação – e outros estão por vir. A fachada também mudou e um galpão grande do outro lado da rua virou o depósito. O crescimento tem sido rápido, tanto que falta até espaço. Quatro tanques de fermentação foram pintados e colocados do lado em uma área coberta do lado de fora da cervejaria.

O Beer Ranch ocorre durante uma sexta-feira. É o dia no qual cervejeiros convidados do Beer Train fazem uma brassagem colaborativa na cervejaria. Quem quiser pode se inscrever e acompanhar tudo de perto, desfrutando da hospitalidade dos anfitriões com chopes liberados e almoço. Além de Greg Koch, por exemplo, Doug Odell, fundador da Odell Brewing, e Chris White, fundador do laboratório de leveduras White Labs, já participaram e fizeram ótimas cervejas.

Greg Koch, cofundador e presidente da Stone Brewing, é um influente aliado

Greg Koch, cofundador e presidente da Stone Brewing, é um influente aliado

Os convidados da vez foram os norte-americanos Chris Kirk (Great Divide/Moffat Sation) e Tyler Joyce (Great Divide/Mile High), renomados cervejeiros da região do Colorado, nos Estados Unidos, o belga Greg Murer, cervejeiro das marcas La Brasserie Fleurac, na França, e a mexicana Laura Rudth Bock, chef de renome internacional, especializada em cacau e chocolate. Também estiveram presentes representantes das cervejarias Dama Bier, de Piracicaba (SP) e SüdBrau, de Bento Gonçalves (RS). Os gringos fizeram outras produções nessas mesmas fábricas durante a estada no Brasil.

Foi possível acompanhar todo o processo da cerveja, receita bolada pelos norte-americanos de uma Wheat Beer (cerveja de trigo americana) escura e com cacau. Desde o início, muita ajuda nas panelas. O entra-e-sai na sala de brasagem era grande enquanto a confraternização rolava solta na área aberta das instalações. Greg foi o centro das atrações por conta do atraso no voo dos norte-americanos, que só chegaram na metade da tarde. Mas o pessoal pareceu não se importar muito e o clima geral era de confraternização. No almoço, sanduíches de pães de fermentação espontânea e leveduras de cerveja com recheios inusitados, de Barreado a tropeiro.

No galpão, do outro lado da rua, é onde Samuel guarda alguns dos seus tesouros. Além de leveduras líquidas, lúpulos e produtos acabados, a câmara fria esconde algumas experiências da cervejaria. Feitas na panela, obviamente. Nos fundos, barris de madeira maturam cervejas por períodos mais longos. Foi possível experimentar desde Wee Heavy destilada, maturada em barril Bourbon, até 4 Blés em barris de carvalho. Ambas deliciosas e sem data de lançamento ainda.

Festa sobre trilhos

No dia seguinte, logo cedo, os passageiros já estavam reunidos na Rodoferroviária de Curitiba para o embarque no tão aguardado Beer Train. Dois vagões tem a sorte de fazer esse passeio tradicional na cidade acompanhado por belas cervejas artesanais da Bodebrown, Bier Hoff Pumpkin Ale e Dama Bier IPA. E elas se mostrariam essenciais, já que o dia anunciava ser de temperaturas muito altas já na partida.

E o passeio começa orientações e agradecimentos por parte da tripulação do trem e de Samuel. Entre a capital e a Serra do Mar as paisagens vão mudando aos poucos, na medida em que as cervejas começam a ser servidas e os passageiros dão início ao bate-papo. Um kit, entregue no embarque traz a caneca do evento, o cardápio e pequenas porções de queijo para as harmonizações. Pães artesanais também foram servidos ao longo da viagem. E poucos quilômetros depois o passeio passa a ser festa sobre trilhos. Apesar das sequências continuarem a serem servidas regularmente, poucos permanecem sentados e a confraternização vira novamente o objetivo. Tudo isso enquanto se curtem belas paisagens.

A ideia desse passeio inusitado nasceu, segundo Samuel, de uma reunião de família com o irmão e a mãe, guia turística há mais de 10 anos no transporte ferroviário de Curitiba. Além disso, o próprio Samuel é um aficionado por trens, já tendo participado de viagens em diversas partes do mundo. “Essa é uma iniciativa inovadora no Brasil, na América Latina e uma das poucas no mundo do gênero”, diz.

O desembarque ocorre já em Morretes, cidade histórica na região litorânea do Paraná. Mas o passeio ainda não termina. Uma pequena caminhada e todos chegam ao restaurante onde será servido como almoço o Barreado, comida típica da região baseado em carne bovina cozida até desfiar. O prato é pesado e no breve tempo até o embarque em ônibus para Curitiba, muitos aproveitam para descansar à marguem do Rio Nhundiaquara, que corta a cidade. Outros, mais ousados, se refrescam dentro das águas mesmo – o calor não dava trégua! A volta para a capital paranaense é tranquila e a maior parte dos passageiros aproveita para descansar e dormir, dando fim a belos dois dias de muita cerveja boa, cultura e diversão.

Veja a galeria de fotos: 

Baden Baden, paixão artesanal, disciplina industrial

BeerArt sobe a serra paulista e visita a filosofia da Baden Baden, preservada ao ser adquirida por grupo

O mestre-cervejeiro cuida do "pulmão" da Baden Baden (Foto: Rodrigo Cavalheiro/Beer Art)

O mestre-cervejeiro cuida do "pulmão" da Baden Baden (Foto: Rodrigo Cavalheiro/Beer Art)

Rodrigo Cavalheiro (Texto, fotos e vídeo)

Beer Art 3 - dez 2013

Campos do Jordão (SP) - São 9h em Campos do Jordão, e um cheiro leve de bolo caseiro sai da cozinha da cervejaria Baden Baden, numa colina com pinheiros, passarinhos e outras referências bucólicas. Os primeiros turistas do dia descobrem, ainda na recepção, que não poderão fazer fotos ou vídeos dentro da fábrica quando Marcus Dapper abre a tampa de um tanque prateado batizado de "pulmão". O odor se adensa, como se um fogão à lenha estivesse dentro do cilindro e dali fosse sair uma fornada. De certa forma, vai. Só que engarrafada e em uma escala que faz o lema da casa, "Cerveja feita à mão", parecer uma homenagem à origens, a esta identidade de "coisa do interior" que a Baden Baden cultiva.

No "forno" (o nome técnico da cozinha é "sala de brassagem") está um lote de Pilsen, a linha mais vendida da cervejaria, criada em 1999 e dona de prêmios internacionais que têm aumentado a curiosidade sobre ela. Questionado sobre o "segredo" para a boa reputação entre crítica e público, Dapper destrói qualquer expectativa em torno de uma receita escondida a sete chaves.

"Compramos o malte de empresas conhecidas, o lúpulo também. A água daqui é boa sim, mas hoje, com tratamento a custo mais baixo, se consegue a mesma qualidade em outros lugares. Estar em uma região fria também não é um trunfo em si. Atrai turistas, mas não ajuda a produzir cerveja", desmitifica.

Não por acaso, há fábricas abrindo no Nordeste em localidades que em nada lembram a verde Baden Baden original, cidade de 50 mil habitantes no sul da Alemanha. Os grandes fabricantes estão de olho em subsídios estatais e em mão de obra barata que compensam com folga corrigir o alto teor de sais da fonte da região, por exemplo.

Paixão e disciplina

são os ingredientes

Se a Baden Baden tivesse uma receita que justificasse a aura de mistério sentida por quem visita a fábrica, diz o cervejeiro, ela teria menos a ver com criatividade, e mais com disciplina. É preciso chegar à fábrica cedo e conferir o "hemograma" de cada lote. Detectar variações surpreendentes a tempo e corrigi-las. Fazer com que cada remessa seja a cópia fiel da anterior. Que cada gole se pareça àquele que conquistou o cliente em sua primeira visita a Campos do Jordão, naquele fim de semana inesquecível no melhor hotel da cidade.

"Diria que é preciso misturar dois ingredientes: paixão e disciplina", resume.

"Paixão porque lidamos com fermento, que é algo vivo. Às vezes ele vai dormir tarde na noite anterior, dorme de calça jeans, demora para acordar de manhã, tem mau humor. Se nós estamos com sono, tomamos um café ou um chimarrão para acordar. Temos instrumentos para fazer o mesmo se está 'sonolenta' a cerveja", compara o gaúcho de Porto Alegre, que ouve as mesmas piadas, sobre a boa vida de passar o dia bebendo cerveja ou por que não tem barriga, quando visita a família.

Foto: Rodrigo Cavalheiro/Beer Art

Foto: Rodrigo Cavalheiro/Beer Art

Esta correção de rumo no produto em parte é feita com testes sensoriais, o que na boca dos turistas vira "provinha". O cervejeiro degusta a amostra para saber se aquele tanque está de acordo com o padrão. Por precaução, Dapper toma um café da manhã reforçado, com frutas, e não marca compromissos em que tenha que dirigir logo após os cerca de 10 goles matinais. São as pitadas de paixão, que interferem na vida pessoal.

A disciplina que Dapper cita como ingrediente essencial ‒ há obsessão por limpeza, organização e automação ‒, é um trunfo da casa, difícil de alcançar em cervejarias menores. A Baden Baden tem capacidade para produzir 160 mil litros por mês e pega carona em uma rede de distribuição que coloca suas garrafas em todas as casas do Sudeste especializadas em cervejas gourmet, bem como em grandes mercados com seções de cervejas especiais na região.

Esta injeção de sobriedade em escala industrial ocorreu em 2007, quando a Brasil Kirin (cuja principal cerveja é a Nova Schin) comprou a fábrica. O negócio aguçou a exigência por cumprimento de metas, modernizou o maquinário. Em uma microcervejaria com know-how de grande, a produção dobrou. "Há mais condição de produzir cerveja com regularidade no sabor. O laboratório, por exemplo, tinha metade do tamanho. Agora temos uma pequena fortuna em equipamento sobre uma mesa para fazer testes. Esta é a vantagem de pertencer a um grupo grande", aponta Dapper, que acumula as funções de chef e chefe.

A "concorrência"

veio para ajudar

Como gerente da fábrica, este gremista domina a parte de gestão de pessoal e logística. As garrafas vão primeiro para a sede da Brasil Kirin em Itu, onde um só tanque de cerveja "não gourmet" tem capacidade para mais de 1 milhão de litros. Por isso a Baden Baden, sustenta ele, ainda usa o lema "feita à mão" ‒ cada lote, umas 5 mil garrafas, tem supervisão humana.

Quarto cervejeiro da história da Baden Baden, Dapper não perde o sono com a multiplicação de marcas gourmet, pelo contrário. Brinda o boom dos últimos seis anos, as experiências caseiras e a criação de micro e nanocervejarias. Isso torna mais populares as cervejas especiais, um universo que ele adora por fermentar uma camaradagem que não existe entre as grandes marcas.

"Às vezes um maluco deixa duas garrafas na porta da fábrica para que a gente experimente e dê alguma opinião. Ele nem quer produzir em série, lucrar com isso. Só quer saber se exagerou em algum ingrediente, quer melhorar", lembra Dapper, rindo da pitada de amadorismo.

Macus Dapper explica em vídeo de 1 minuto e meio
a diferença entre cervejeiro, cervejólogo e cervechato

Em meio a tantas novas marcas, a tecnologia faz diferença na hora de competir porque, segundo ele, em uma fábrica pequena o conteúdo de cada garrafa tende a ser uma surpresa. "Insisto na importância disciplina, do trabalho de rotina, a cada manhã olhando cada tanque. Se em determinado dia noto diferença em algum lote e gosto, minha obrigação é não cair na tentação de mudar o padrão. Por mais que eu tenha gostado, preciso corrigir", explica o cervejeiro que começou na Polar em Estrela, esteve por 18 anos na Ambev, e está na Baden Baden desde o início de 2012.

Dapper associa a febre dos experimentos e novas marcas à influência das escolas belga e americana de cervejeiros, mais permeáveis à inovação. A escola alemã, na qual ele buscou formação e se inclui, tem como grande trunfo justamente "seguir a tradição", sem inventar muito.

Chocolate é inspirada

no hábito dos turistas

Foto: Rodrigo Cavalheiro/Beer Art

Foto: Rodrigo Cavalheiro/Beer Art

Pela cozinha da fábrica que coordena, passam com regularidade sete rótulos (Pilsen, Weiss, Golden, Bock, Stout, Red Ale e 1999, ordenadas em volume de produção). Há ainda duas cervejas sazonais: a Celebration, que só sai no inverno, a Christmas, que só sai no Natal. A Tripel, de alto teor alcoólico, 14 graus, teve edições limitadas, em 2008 e 2010.

A caçula e xodó da casa é a Chocolate, criada este ano e a melhor de 2013 no estilo "chocolate" segundo a World Beer Awards. Criada para ter uma edição limitada, ela agradou e, fim do mistério, passará a ser sazonal ‒ produzida já para a Páscoa de 2014.

Ampliar as variedades é uma meta da Baden Baden, mas também um desafio. "Cada vez que trocamos o estilo de cerveja, é preciso limpar todos os tanques. Se não ficou bom, jogar o que está lá fora e limpar de novo. Isso faz com que em uma fábrica de cervejas especiais o desperdício seja imensamente maior que em uma grande", diz.

A Chocolate, por exemplo, surgiu não de um experimento genial de laboratório ou por um golpe de sorte, mas de um estudo sobre o consumidor da Baden Baden, em geral um turista sem grandes preocupações financeiras que sobe a serra paulista para passar o fim de semana comendo e dormindo bem, atraído pelo frio. Nas pesquisas sobre seus hábitos, apareceu a compra de chocolate depois de apreciar a culinária alemã no restaurante da Baden Baden, uma referência gastronômica no centro da cidade, a 2,7 km da fábrica.

"Fomos pesquisar em outros países quem produzia cerveja chocolate. Havia uns oito rótulos e analisamos amostras. As cervejas no Brasil não podem ter derivados de leite, por ser um produto de origem animal. Mel, usado em cervejas belgas, por exemplo, está proibido. Usamos baunilha e cacau puro, que remete ao chocolate no sabor e no cheiro", explica. "Mandamos para o concurso sem muita pretensão", diz, apontando os tonéis da cozinha reservados especialmente para experimentos. "A Chocolate saiu daí".

 

Provavelmente por isso, passar um feriado em Campos do Jordão, a 173 km de São Paulo, ‒ com 1.628 metros, o mais alto município brasileiro, com temperatura mínima média de 8,6°C e máxima de 20,9°C ‒ seja indissociável de beber uma Baden Baden no respectivo restaurante (com o rótulo virado para a calçada). Provavelmente por isso, visitar sua fonte seja uma mania. No inverno ‒ e o cervejeiro admite passar mais frio na serra paulista do que na capital gaúcha ‒, é preciso reservar com dias de antecedência um lugar na visita guiada pela fábrica, batizada comercialmente de "experiência sensorial" ‒ reservas no (12) 3664-2004 ou filas de duas horas, sem garantia de conseguir vaga. Pagando R$ 15, uma pechincha em uma das cidades mais caras do Estado mais caro do país, o visitante conhece a sala de prêmios e a história da empresa, é apresentado aos oito tipos de malte e aos sete de lúpulo. Vê como funciona a cozinha, sente o cheiro do bolo saindo do forno e, por fim, prova duas fatias, Cristal e Bock, bem tiradas.

Por que o Sudeste é

foco da distribuição

Embora não disfarce o orgulho com o desempenho da nova "filha", o cervejeiro garante que os prêmios não são uma obsessão. A política é inscrever-se nos principais. "Não fazemos cerveja pra concurso. Algumas cervejarias se orgulham da quantidade de prêmios que conquistaram e usam como marketing. Isso porque para o público é difícil mesmo saber quais são os concursos mais tradicionais mundo afora. Mas é uma estratégia", diz o gaúcho, que abusa do tchê a cada resposta e mantém um quadro da estátua do Laçador na parede do escritório.

Ele explica que a Baden Baden não chega a sua região natal com a frequência e variedade do Sudeste, primeiro, por uma questão de mercado. A Eisenbahn, de Blumenau, também foi comprada pela Brasil Kirin, em uma ofensiva sobre as cervejas artesanais interpretada por especialistas como uma tentativa de se associar a marcas locais fortes no Sudeste ‒ região em que a Nova Schin sofre rejeição, embora seja líder no Nordeste. Apesar de a Baden Baden e a Eisenbahn terem suas particularidades, um iniciante as coloca em geral na categoria "cerveja forte". Pelo mesmo motivo, parte do portifólio da Eisenbahn não chega ao Sudeste.

Outra razão para a Baden Baden se concentrar no Sudeste é a qualidade. "Tirando casos muito específicos, uma cerveja nova é melhor. Ela também perde qualidade por oxidação, se passar por calor e por muita agitação no transporte. Podemos garantir a qualidade até ela sair da fábrica, depois as variáveis aumentam e nos resta torcer. A mais fresca está mais perto da fábrica", explica o cervejeiro.

Else Beer, uma novidade capixaba

Conheça uma cervejaria artesanal pioneira no Espírito Santo

A Else Beer é a primeira artesanal do Espírito Santo (Foto: Daniel Hirschmann/Beer Art)

A Else Beer é a primeira artesanal do Espírito Santo (Foto: Daniel Hirschmann/Beer Art)

Daniel Hirschmann (textos e fotos)

Beer Art 2 - out/nov 2013

Viana (ES) - Quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve no Espírito Santo para a primeira extração simbólica de petróleo da camada do pré-sal, em setembro de 2008, o empresário José Olavo Medici acompanhou tudo de perto. Bem de perto. Foi sua empresa, especializada em eventos corporativos, que organizou a cerimônia e preparou a estrutura onde a comitiva presidencial, autoridades, empresários e imprensa se reuniram para discursos, coquetel e entrevistas de praxe. Palco, mesas, bifê, sala de imprensa, banheiros, cada detalhe tinha de estar sob controle, cumprindo os padrões exigidos. Hoje, cinco anos depois daquele dia histórico, este empresário de 53 anos dedica a mesma atenção e o mesmo cuidado a um sonho que está se tornando realidade: fazer uma cerveja artesanal com sabores e aromas diferenciados, capazes de conquistar tanto aqueles que já têm experiência quanto os que estão dando os primeiros passos, ou goles, no mundo das cervejas especiais.

José Olavo Medici (Foto: Daniel Hirschmann/Beer Art)

José Olavo Medici (Foto: Daniel Hirschmann/Beer Art)

Em um sítio no município de Viana, a cerca de 30 km do centro de Vitória, José Olavo comanda a Else Beer, a primeira cervejaria artesanal capixaba com registro no Ministério da Agricultura, obtido em julho deste ano. O feito dá uma ideia da seriedade com que o empresário trata o novo negócio, apesar de não ter ansiedade por lucros dele – a empresa de eventos vai muito bem, obrigado – e de manter a mesma paixão da época em que, como tantos outros, fazia cerveja em panelas, em casa, para consumo próprio e com amigos.

Ao lado dele, estão o genro, o cervejeiro prático Peterson Loan Ribeiro, 21 anos, e um dos funcionários da empresa de eventos, Antônio Leôncio Martins, de 57, autodenominado “auxiliar de aprendiz”. Juntos, eles operam da brassagem ao engarrafamento e rotulagem, com conhecimentos sobre filtragem e fermentação e todo o processo da fábrica.

José Olavo foi o primeiro a dominar os equipamentos, pois não tinha condições de contratar um cervejeiro prático.

Depois, ensinou tudo ao genro, que agora controla os processos nas bombas de mistura e lauter, faz testes com iodo e verifica a densidade, anotando os resultados em fichas de controle, que atestam o padrão alcançado pela cerveja. Enquanto isso, o produto transferido da bomba de mistura passa pela filtragem, que não é intensa, mas busca basicamente tirar o fermento da cerveja para resultar em uma bebida de um dourado quase transparente, sem nenhum aditivo químico ou conservante em sua composição. Apenas malte, lúpulo, fermento e água.

A sala de bombas, tanques e máquina de engarrafamento fica tomada por um leve aroma do pilsen usado na fabricação da Clássica, a blonde ale da Else Beer. O ambiente é tranquilo, quase silencioso, não fosse por alguns barulhos típicos das máquinas e umas poucas conversas entre os cervejeiros. Algo impensável há pouco mais de dois anos, quando ali ficava um galpão usado para abate de animais, e os cheiros e ruídos eram outros.

Else Beer (Foto: Daniel Hirschmann/Beer Art)

Else Beer (Foto: Daniel Hirschmann/Beer Art)

As estrelas se chamam

Clássica e Jacarandá

A transformação do local nasceu, em parte, dos elogios e do incentivo dos amigos com quem José Olavo dividia suas descobertas e primeiras experiências no campo das cervejas especiais. Motivado, ele visitou a feira Brasil Brau, em 2011, decidido a comprar máquinas que permitissem produzir mais. Chegou a São Paulo pensando em 50 litros. Na volta para casa, era proprietário de equipamentos para 250 litros. “Foi uma atitude completamente irresponsável. Botei a emoção na frente da razão. Talvez, se tivesse feito as contas, não teria investido numa cervejaria de 250 litros”, admite.

Else Beer (Foto: Daniel Hirschmann/Beer Art)

Else Beer (Foto: Daniel Hirschmann/Beer Art)

Com ou sem contas, o negócio avançou. Entre obras, equipamentos e investimento total de R$ 300 mil, aquele velho galpão no sítio da família deu lugar à microcervejaria de 600 m², com uma área gourmet para visitantes, cercada por morros e árvores, ao som do canto de pássaros, na região da Pedra da Mulata, distante apenas 6,5 km da sede de Viana. A localização permite o uso, em todo o processo, de água que brota a 49 metros de altura, de uma fonte totalmente protegida. Potável, translúcida, inodora e mole, a água utilizada na fabricação da Else Beer tem grau 5 de dureza, o que indica a baixa quantidade de minerais que poderiam afetar o produto final e representa um custo a menos para eliminá-los.

A capacidade instalada é para uma produção de 2,5 mil litros por mês. Na linha de frente, além da blonde ale Clássica, está a dry stout Jacarandá, feita com maltes especial B, chocolate, black, vienna e pilsen. O nome faz referência à existência de grande quantidade dessas árvores de cor escura na região da fábrica, e a uma comunidade homônima, próxima dali.

Com o pé no chão

mas com paixão

Se a água usada é insípida e inodora, a bebida que brota dos tanques da Else Beer privilegia o aroma dos maltes e leva lúpulo somente para o amargor. Percebe-se o gosto do café, do chocolate, do especial B, que lá no fundo dá um sabor de ameixa, mas com leveza. “Tem que respeitar o produto. Não gostaria de tomar uma cerveja com gosto de laranja. Ter uma laranja no fundo, um biscoito no finalzinho, um mel, isso sim. Mas tomar e já vir o gosto de cravo, não. Não quero tomar cravo. Quero tomar cerveja. Se ela me der a possibilidade de, muito singelamente, mostrar esses toques, essas variações, é legal”, justifica José Olavo.

 

O teor de 5%, espuma grudando na lateral da taça e o visual até apontam para uma cerveja bem encorpada, mas a Else Beer espera surpreender. “Se você chegar com uma cerveja com 8, 9 ou 10% de álcool e um amargor elevadíssimo, sabor de cravo ou de canela, a pessoa vai tomar e não vai querer nunca mais”, pondera o empresário. “Não quero uma situação dessas. Quero fazer um produto equilibrado, que não agrida o paladar de quem está começando, mas que ele saiba que está tomando um produto diferenciado.”

José Olavo acredita que a Else Beer já alcançou esse padrão desejado. A estratégia agora é consolidar a Clássica e a Jacarandá e só então partir para outras variedades, podendo chegar a uma linha de pelo menos cinco tipos de cerveja, além de ampliar a fábrica – e aí, sim, pensar em lucros. A comercialização ainda está focada no Espírito Santo, em pontos de público A e B, mas a tendência é expandir as vendas, aproveitando o momento favorável das cervejas especiais. Tudo paulatinamente, com pé no chão e acompanhando de perto, para ter uma evolução tranquila, no melhor estilo do empresário que, há cinco anos, arrancou elogios da equipe do Palácio do Planalto. “Sem perder a característica de ser uma cerveja realmente artesanal, tendo controle total do que estamos fazendo e colocando no mercado”, destaca.

A capacidade instalada é para 2,5 mil litros por mês (Foto: Daniel Hirschmann/Beer Art)

A capacidade instalada é para 2,5 mil litros por mês (Foto: Daniel Hirschmann/Beer Art)

Seasons, para todas as estações

Um prédio com aparência de depósito em Porto Alegre abriga uma cervejaria inovadora

Leonardo Sewald, que no início percorria os bares com barris oferecendo sua cerveja, hoje uma das mais respeitadas entre as artesanais brasileiras (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Leonardo Sewald, que no início percorria os bares com barris oferecendo sua cerveja, hoje uma das mais respeitadas entre as artesanais brasileiras (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Ricardo Jaeger (fotos) e Tiago Lobo (texto)

Beer Art 1 - ago/set 2013

Porto Alegre - Por trás de uma porta de metal que sugere um lugar inacessível, encontra-se um ambiente acolhedor. Uma rápida olhada dentro do depósito de 300 m² no bairro Anchieta, próximo do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre (RS), revela o espírito da Seasons, o de produzir cerveja como quem faz uma obra de arte. É uma fórmula bem-sucedida. Em três anos, acumulou prêmios, inclusive internacionais, e quadruplicou a produção.

Tiago Genehr, que guiou a equipe da Beer Art na visita à cervejaria (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

Tiago Genehr, que guiou a equipe da Beer Art na visita à cervejaria (Foto: Ricardo Jaeger/Beer Art)

O cervejeiro Tiago Genehr guiou a equipe da Beer Art pelo prédio com altura de hangar metodicamente limpo e explicou o processo de fabricação. Naquela tarde, uma fervura lançava um aroma suave de malte. Não fossem as garrafas de vidro em lugar de tubos de ensaio, lembraria um laboratório. A cena incluiu um instante em que o cervejeiro, Eduardo Sampaio, pareceu um cientista com óculos, avental e luvas ao preparar uma solução para limpar o equipamento.

A história da empresa começa em 2008 com Leonardo Sewald e a esposa, Caroline Bender. O casal viajou para a Alemanha, e Sewald teve a certeza de que queria abrir seu negócio. Foi para os EUA estudar e, quando voltou, decidiu largar 13 anos como profissional da área de Tecnologia da Informação e começar seu empreendimento. Isso levou dois anos, e a Seasons só abriu as portas em 2010. No início eram ele e a esposa, responsável pelo setor financeiro.

Para conseguir clientes, Sewald saía com um barril e oferecia o produto em bares. Muitos manifestavam interesse mas exigiam que fossem fornecidas mesas, cadeiras e até freezers com o produto. “Eu recebi muitos ‘nãos’, mas aqueles bares que nos disseram ‘sim’ estão conosco até hoje”, observa.

A Green Cow foi o primeiro carro-chefe (Ricardo Jaeger/Beer Art)

A Green Cow foi o primeiro carro-chefe (Ricardo Jaeger/Beer Art)

O negócio começou a crescer a partir do sexto mês, com uma carta de clientes fiéis e o lançamento da primeira bebida engarrafada: a Green Cow, uma American IPA que se tornou o carro-chefe da empresa. Depois vieram as garrafas das outras cervejas da empresa, que hoje conta com um catálogo de quatro rótulos de linha, três sazonais e 29 receitas registradas no Ministério da Agricultura.

Durante a entrevista a Seasons foi visitada pelo mestre-cervejeiro Carlos Bolzan, que desde 2006 trabalha na Dado Bier. Bolzan foi comprar um fermento, pois a Seasons também vende insumos como forma de incentivar e apoiar a cultura da boa cerveja. Em outros mercados aquela visita seria considerada espionagem, mas por ali é todo mundo conhecido. Sewald explica: “Nós nos encaramos como parceiros de negócios, pois o mercado é tão pequeno que me interessa que apareçam novas cervejarias”. Segundo Sewald, que se diz um Geek da cerveja, é fácil fazer uma bebida boa. O difícil, explica, é fazê-la cada vez melhor.

Veja galeria (Fotos: Ricardo Jaeger/Beer Art)